Morcegos e Polenguinho

Na Flip, filas, pousada ruim e pequenos medos revelam que a literatura também se alimenta de morcegos, Polenguinho e banalidades cotidianas
Ilustração: Marcelo Frazão
31/07/2026

Havia quarenta mil pessoas na Feira Literária de Paraty. Talvez você não seja uma delas — é uma facada. As pousadas, caríssimas e ruinzinhas. Um quarto chinfrim cobra diária de quatro estrelas. De São Paulo, são quase sete horas de ônibus. E vindo de outros estados? Você teria que passar a noite num semileito? A estrada enjoa como uma lombriga. E, ainda assim, quarenta mil pessoas. Filas em qualquer sorveteria ou banheiro. Se você deixou pra lá, dá pra entender.

Te conto um pouquinho do que experimentei. Afinal, literatura é pra isso: a crônica sai de graça, você acompanha umas letras enfileiradas e vive sem se cansar. Aluguei um casebre de frente para um muro. O banheiro não tinha janela. Os botões do fogão estavam ensebados. Os lençóis eram azul-escuros.

O dono avisou que havia bichos: morcegos e algo mais — a segunda espécie não ouvi; meus ouvidos se trancaram depois de “morcego”. Assim que o homem entregou a chave e foi embora, tentei relembrar os outros bichos que ele teria mencionado — que perigos eu corria? Mosquitos, baratas? Procurei uma farmácia e comprei inseticida.

Na primeira noite, só tomei uma ducha e dormi. Depois de beber uns goles de água e meio Stilnox.

Tinha trazido chá preto e Polenguinho de São Paulo. Na manhã seguinte, lavei uma xícara e acendi a chaleira, aliviada por ter sobrevivido à noite sem sustos. Abri a mala de rodinhas e peguei uma bota nova, que havia comprado para me sentir arrumadinha. Dei um laço no cadarço bicolor e andei em volta da mesa, pra ver se machucava o pé. Senti um potencial de bolhas no dedinho. Protegi com esparadrapo.

Assisti a duas palestras na manhã de quinta-feira e almocei pipoca de micro-ondas. Só consegui sentar num restaurante para uma refeição completa na noite de sexta-feira (enquanto havia missa na pequena igreja ao lado). Meu planejamento deu bons resultados: nenhuma bolha nos dedinhos.

Tudo o que escrevi acima é verdade. Você se pergunta: mas só isso? Um ramerrame de ajustes miúdos? Onde está a literatura?

Um intérprete apressado poderia achar que me faço de engraçadinha, desafiando os ilustres, algo do tipo “o rei está nu”. Como se a crônica insinuasse: a Feira é só futilidade, turistas fazendo filas para ganhar autógrafos de celebridades literárias. Esclareço que não. Aliás, pelo contrário. Voltei de Paraty cansada e satisfeita — com faturas a pagar, é verdade, mas até o dia cinco consigo quitar tudo.

O que significa essa lista de bobeiras, então? Morcego, Polenguinho… pra quê?

Espero que alguém leia e compreenda. As redes sociais estão repletas de selfies: ao fundo, as calçadas de pedra, as casas coloridas. Escritores nacionais e estrangeiros sorrindo de braços dados, fãs orgulhosos ao lado de seus autores favoritos. Nos jornais, as matérias falam dos livros mais vendidos, das apresentações relevantes e dos transtornos pela superlotação. Isso tudo foi verdade também.

Tudo importante e desimportante — achei que cabia, aqui, uma reflexão zen.

A Feira acaba e a gente volta pra casa. A poeta Orides Fontela, que morava num quarto emprestado e recebia 423 reais de aposentadoria, agora faz parte de uma lista de homenageados que inclui comunistas e ex-comunistas, uma vítima de tiro, um diplomata, uma suicida e, ao menos, quatro alcoólatras.

De todas essas pessoas, até hoje, só tive uma preguiça: ler Jorge Amado.

Sabina Anzuategui

É autora de Escrevi pra você hoje (2023), Uma mulher sem ambição (2021), Luciana e as mulheres (2019), O afeto (2011) e Calcinha no varal (2005). É bisneta de Marciano. Ama os cachorros platonicamente.

Rascunho