Leitores odeiam sonhos?

Sonhos, literatura e insegurança autoral: uma reflexão irônica sobre leitores, inconsciente e a necessidade íntima de afeto para continuar escrevendo
Ilustração: Bianca Rivetti Burattini
30/01/2026

Terminei de ler Os bastidores, de Martin Amis. Do autor, eu lera antes Lionel Asbo, do qual não gostei nada. Mas as miudezas da vida de escritores são um assunto que me interessa, e a recomendação do Michel Laub (em sua coluna no jornal Valor Econômico) acabou por me convencer. Fui lendo à noite, antes de dormir… não sonhei com o livro, mas descobri que faço duas coisas perigosas na literatura. No capítulo Coisas que a ficção não pode fazer, Amis diz que, pelas contas dele, há três pontos cegos na arte de narrar: sonhos, sexo e religião.

Na digressão sobre os três perigos, ele é inteligente e moderado, e não irei aqui contradizê-lo. O autor avisa que fará “generalizações sem-vergonha” e reconhece que, para cada máxima, há um grande número de anomalias. Ao mesmo tempo, pondera: “Uma generalização não fica mais fraca ao desenterrar uma ou até duas mil exceções”.

Soa mais do que sensato. Amis explica, também, que suas constatações não são regras (para ele, a ficção é o espaço da liberdade — e todos concordamos, certo?). O que sugere são “certas zonas amplas e conhecidas da existência humana que parecem naturalmente imunes à arte do romancista”. Mas qual romancista?

Puxando da memória, acho que Drácula, de Bram Stoker, é cheio de sonhos. Sonhar acordado vale? Philip Dick e Bae Su-ah são admiráveis nisso. Outro exemplo, se não me engano, é Stephen King, que narra sonhos aterrorizantes. Ok, ok, exceções não invalidam uma generalização. Só estou divagando. Para escrever sonhos, precisamos entrar no clima dos sonhos.

Em Uma mulher sem ambição, incluí vários. Estava alerta ao potencial de chatice dessas páginas. Por que entraram no livro? É que, nas semanas em que o finalizava, comecei a sonhar com carinhos masculinos. Sonhos raros, no meu caso. Meu mundo onírico está mais cheio de casas (novas, decadentes, perdidas) e elogios (jornalistas e editores que me tratam bem — opa! deixa pra lá, esse sonho recorrente é patético, um conforto pueril do meu inconsciente). Enfim, enquanto terminava Ambição, passei a sonhar com homens carinhosos.

Achei engraçado, pois justamente tinha decidido escrever um romance hetero. A personagem interferia nos meus sonhos para eu escrevê-la melhor. Assim, as cenas entraram na versão final.

Não irei agora reler o que escrevi. Sinto um pouco de vergonha. Conto apenas outro sonho — um novo, desta última noite. Eu me hospedava no apartamento de um livreiro conhecido; um cara legal, que promove eventos literários. Deitada na cama de hóspedes, quase dormindo, eu o percebia entrar debaixo dos meus lençóis, nu.

Por um instante, senti medo de assédio. Porém, ele apenas deitou e me abraçou de conchinha, numa proteção paternal. Logo chegaram a esposa dele e duas crianças. A mulher se mostrou um pouco enciumada, mas sua principal irritação foi com minha mochila. Uma das filhas era alérgica, e ela reclamava que eu trazia poeira, o que deixaria a filha doente.

Qual o significado desse sonho? Não faço ideia. A esposa e a filha alérgica… sei lá. Mas o abraço do livreiro é aquilo de sempre: meu inconsciente me agradando, dizendo: “Olha, as pessoas gostam dos seus livros…”. Publicar é uma batalha, chegar aos leitores é procurar ervilha catando feijão… Mas alguém (nos sonhos) está ali pra me apoiar.

O inconsciente dá essa colher de chá porque sabe de nossa carência. Escritores ficam sozinhos, um dia depois do outro, e seguir escrevendo pede uma fé difícil de manter. Precisamos de um cafuné, no vazio aberto pelos livros jogados ao mundo.

Sabina Anzuategui

É autora de Escrevi pra você hoje (2023), Uma mulher sem ambição (2021), Luciana e as mulheres (2019), O afeto (2011) e Calcinha no varal (2005). É bisneta de Marciano. Ama os cachorros platonicamente.

Rascunho