As boas almas podem descansar

A lembrança de uma cachorra amorosa revela os limites da bondade, os desejos alheios e a paz de confiar no mundo
ILustração: Tereza Yamashita
30/10/2026

A cachorra que mais amei era uma vira-lata branca de pelo curto, com apenas uma orelha preta. Quando a adotamos, ainda filhote, escolhemos o nome “Ursa Polar”. Éramos três, os novos tutores: meus irmãos (7 e 11 anos) e eu (13 anos). Logo, de Ursa, passamos a chamá-la de “Uxa”. Uxa era doce e amorosa. Na hora de comer, os outros cachorros avançavam sobre as tigelas, engoliam tudo avidamente. Uxa não se apressava, não disputava; confiava em nós. A comida chegaria, ela não precisava brigar por isso.

O motivo, eu pensava, é que a adotamos muito pequena e a amamos muito desde o início. Os outros cachorros viveram na rua, foram adotados já adultos. Uxa nunca sofreu: chegou em casa quando ainda cabia em nossas mãos. Lá no fundo, na minha raiz mais verdadeira, eu me sentia ligada à sua doçura. A sensação de bondade. Confiar. Olhar o mundo e as pessoas com olhos bons. A bondade não precisava de justificativa — era apenas o modo certo de se viver.

Tinha uns dezoito ou vinte anos quando pensava nisso? Foi quando deixei a casa de minha mãe e me aventurei pelo mundo. Colecionava frases de escritores sobre o tema: “Você acredita, como eu, que a bondade é uma forma de inteligência?”, perguntou Clarice Lispector numa entrevista. E Jeremias, o bom, de Ziraldo: quantas vezes reli esse livro?

Tentei ajudar um adolescente que encontrei na rua, com marcas de algema no pulso. Me contou que pedia esmola na esquina da avenida Rebouças quando a polícia o jogou num camburão. Acompanhei o garoto até o terminal de ônibus que o levaria pra casa. Ficava perto da Leroy Merlin e ele me pediu uma piscina inflável. Sabia até o preço.

Tentei também ajudar uma moça de dezesseis anos que atravessava chorando a rua Inácio Pereira da Rocha. Fugira de casa e vivia com um carroceiro, que batia nela. Peguei um táxi e fomos até a delegacia da mulher, em busca de um abrigo. Não souberam informar sobre casas de acolhimento. Procurei uma pensão em Pinheiros e menti para a proprietária, confirmando que conhecia a moça do meu trabalho. Avisei o Conselho Tutelar, que tentou localizar a família da moça. O carroceiro descobriu seu paradeiro e arrombou a porta da pensão. O Conselho Tutelar localizou a família, mas a moça não quis voltar pra casa. A dona da pensão, depois, me acusou de ter mentido.

Logo percebi que a bondade tem limites. O limite da honestidade — por exemplo, não mentir para a dona da pensão. O limite das escolhas individuais — por exemplo, o adolescente não queria meu acolhimento, preferia uma piscina. Machado de Assis escreveu, em algum lugar, que os maiores erros da humanidade foram cometidos por pessoas que pretendiam ajudar os outros.

A peça de Brecht — A alma boa de Setsuan — acabou me mostrando o que eu já desconfiava: a bondade pura é uma bobagem. Uma amiga me diz: se você quer ajudar alguém, perceba o que essa pessoa quer. A ajuda que você oferece pode não ser o que ela precisa.

E assim chegamos a outubro de 2026. Aquele homem foi derrotado nas eleições presidenciais, depois de uma mobilização popular comovente. Fiz muito pouco nessa campanha. Ainda carrego o vício daquela bondade estranha, um pudor em relação a meus próprios desejos. Se as pessoas querem aquele homem, eu me dizia, então que seja feito: que recebam o que querem.

Mas a maioria não desejou isso. É uma verdade simples: a maioria não o quis. Como a Uxa, fiquei no meu cantinho e tudo deu certo afinal. Que paz existe num povo que não precisa de bondade.

Sabina Anzuategui

É autora de Escrevi pra você hoje (2023), Uma mulher sem ambição (2021), Luciana e as mulheres (2019), O afeto (2011) e Calcinha no varal (2005). É bisneta de Marciano. Ama os cachorros platonicamente.

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