Todo aquele jazz

No bar, ao som de jazz, uma mulher revisita o amor perdido enquanto álcool e memória embaralham desejo, ausência e o eco de um noivado desfeito
Ilustração: Bruno Schier
13/04/2026

Sentada em um canto escuro do bar, mesinha redonda, cadeira confortável, sorveu um grande gole. O uísque desceu arranhando um pouco, trazendo o imediato anestesiar dos sentidos. Gostava de bebidas fortes, embora raramente tivesse contato com elas. No fim, acabara sozinha. Prestou atenção na letra da música, estranhando um pouco: não tinha hábito de ouvir jazz.

It’s my man…

Saudade. Sentiu-se nostálgica; acendeu um cigarro e aspirou profundamente, soltando a fumaça em rodelinhas, quase brincando, aproveitando para suspirar. Um leve formigar tomou-lhe o corpo. Por onde ele andaria? Prendeu um pedaço de cutícula entre os dentes e puxou, resistindo à dor. Limpou o sangue no guardanapo de papel, apertando a unha. Com certeza iria inflamar — acontecia sempre.

He’s no hero out of books…

Pensar nele sempre a deixava daquele jeito. Mole. Ou seria o álcool? As narinas dilataram-se imediatamente, trazendo aquele cheiro másculo, agora só memória. De repente, o sutiã ficou pequeno; os bicos dos seios crescidos. Por onde andaria desde que fugira? Olhando, distraída, o anular direito, percebeu que a marca da aliança sumira. Apenas o amor ficara tatuado, escondido no coração.

What can I do?

Ouviu as últimas desculpas, declaradas entre lágrimas, antes de levantar-se da cama, do virar de costas. Manhã terrível de inverno. A palavra compromisso ficou ressoando, misturando-se aos acordes cantados por Billie Holiday. O medo de assumir declarado. E então, o final do noivado. A juventude como pretexto conveniente. Desculpa. Ainda é cedo, amor. Muito cedo.

Oh, my man, I love him so…

Talagada. Lembrou-se dos olhos cinza onde viajava; mordeu um pedaço de gelo. Nunca mais foi a mesma. A imagem dele apareceu-lhe clara na penumbra. Dançou dentro do copo, refletida no cristal, evaporando muito lentamente, demais. Escondida em todos os cantos, atrás da porta do lavabo, tirando o conforto de tudo.  Jogou os cabelos para o lado como que afastando a ideia.

A mesinha bamba, desequilibrada, o risco de o copo cair. O susto: foi quase — agarrou, na última hora, o cinzeiro. Chegou a molhar o tampo; o guardanapo de papel novamente a socorreu, manchado de vermelho.

Por que as mesas nunca são firmes?

It’s my man…

Ricardo Ramos Filho

É escritor, professor de literatura e produtor cultural. É presidente da União Brasileiras de Escritores (UBE). Autor, entre outros, de Computador sentimental, O livro dentro da concha, Conversa comigo e Cidade aberta, cidade fechada.

Rascunho