Os primeiros passos

A descoberta dos primeiros passos de um neto desperta ternura, vigilância e a consciência de que proteger é um gesto profundo de amor
Ilustração: Marcelo Frazão
19/01/2026

Hoje o interfone tocou cedo. Atendi: era o funcionário da empresa de instalação de redes de proteção nas janelas. Recentemente, soubemos de um caso em Ribeirão Preto. Um menino de quatro anos que caiu do décimo andar. O bichinho escapou com vida, apenas quebrou as pernas; está internado, sem correr risco de morte. Ficamos muito impressionados, decidimos rápido: melhor não contar com milagres, até porque moramos alto, no oitavo, e milagres quase não existem.

Não seria um trabalho complicado. Já tivemos um dia as telas em todos os cômodos. Depois da morte dos gatos — os dois partiram durante a pandemia —, ficaram os ganchos nos parapeitos. Retiramos nós mesmos o entrançado de barbante. Além de serem feios, traziam triste memória. Agora, contudo, a necessidade volta a se fazer presente.

Estivemos no final de semana na chácara com o Juquinha. Surpresa agradável: estava dando os primeiros passos. Sempre que o vejo, sou inundado por um sentimento poderoso, jamais imaginei acontecer comigo. Amor elevado a uma potência muito grande, altíssima! Inebriado, olhando aquele menininho querido, adapto no íntimo versos de Vinicius: Netos, melhor tê-los, e se temos sabemos.

Incrível ver uma criança experimentando as perninhas para se movimentar. Estreando a capacidade de locomoção. Seguem bambas, as fraldas fazendo com que o traseiro se sobressaia, o caminhar ainda indeciso, pouco firme. Mas, ao mesmo tempo, quando iniciam o trânsito, estão decididas, chegam ao destino desejado. Tropeçam, às vezes caem, mas se levantam, erguem-se com os bracinhos meio abertos, auxiliando no equilíbrio. E continuam. Se há um desnível, um degrau, por exemplo, apoiam-se cuidadosas na guarnição da porta, seguram-se com as duas mãos, viram o corpo, descem de costas, soltam-se apenas ao pisarem firmes no novo ambiente, e só então se viram e continuam. Há toda uma ciência particular, fresca, em tal deslocamento. E nós ficamos observando, o coração nas mãos, muitas vezes nos esquecendo de respirar, torcendo para que aquelas primeiras maratonas sejam vencidas.

Quando a noite chega, e o neto está cansado — afinal zanzou pela casa o dia inteiro —, podemos observar certas curiosidades. Ele já não sabe aonde deseja ir, afinal está extenuado, com sono e fome, e tal falta de destino súbita, involuntária, irrita sobremaneira aquele corpinho que bateu perninhas para cima e para baixo desde cedo. Aceita o conforto da chupeta, fica mais um pouco em pé, mas caminha em círculos, fazendo manha, desorientado pelo acúmulo de incômodos. Mais um pouco irá dormir.

Estamos prontos para receber o Juquinha. Na casa dos avós ele poderá circular com as tentações inibidas. Eventuais desejos de voos serão coibidos. Os anteparos foram devidamente instalados nas janelas. Seus primeiros passos estarão aqui também seguros. Junto com os mimos garantidos. Porque são passos que ainda podemos controlar. E é melhor nem pensar em quando forem mais livres.

Ricardo Ramos Filho

É escritor, professor de literatura e produtor cultural. É presidente da União Brasileiras de Escritores (UBE). Autor, entre outros, de Computador sentimental, O livro dentro da concha, Conversa comigo e Cidade aberta, cidade fechada.

Rascunho