Os meninos da bicicleta

Da liberdade infantil sobre duas rodas à violência do presente, a bicicleta une memória e espanto num país em que até a inocência pode acabar em morte
Ilustração: Italo Amati
31/08/2026

Há um lindo poema do poeta português Herberto Helder, Bicicleta, que traz os seguintes versos: “… No dia de verão, violenta, a fantasia esquece. Entre o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce sabiamente. E a bicicleta ultrapassa o milagre…”.

Quando eu era menino sofri o castigo da bicicleta. Era um tempo de liberdade maior nas ruas. Meu irmão e eu flanávamos pelos cantos do bairro em nossas magrelas. Misto de condução e brinquedo, elas nos davam de presente o prazer do vento na cara, da velocidade perigosa nas ladeiras; arriscar-se fazia parte da excitação diária. O risco — qual criança não busca? — fazia parte do cotidiano preferido. E — fenômeno, dádiva — invariavelmente voltávamos ilesos para casa, renascidos, indo além da graça de sobreviver. Verão, fantasia, rosas. A violência, quando havia, era velada.

Um dia inventei moda. Desejei visitar um primo. Na garagem, as bikes emparelhadas, juntas, também irmãs. A que não me pertencia, mais bonita, veloz, em tudo preferível à minha. Não resisti à tentação, montei nela e pedalei. Até os pedais eram melhores.

Meus tios moravam em um desses predinhos de três andares. Por uma passagem lateral chegava-se à garagem. Pequena, poucas vagas, uma para cada apartamento. Encostei o guidom na parede, na frente de um carro e subi. Passamos a tarde debruçados no chão, acompanhando as manobras dos carrinhos do autorama. Perto da hora do jantar resolvi voltar para casa. Havia dentro de mim um dispositivo com alarme. Diariamente, no mesmo horário, ele era automaticamente acionado e acendia a fome. Estivesse onde estivesse, precisava jantar. Afobei-me, beijei todos, desci. Em quinze minutos, voando baixo, teria um prato bem abastecido sobre a mesa me aguardando; poderia saciar meu enorme apetite adolescente. Só que… Cadê a bicicleta? Roubada!

Não teve muita discussão. Meu pai, salomonicamente, determinou:

— A sua bicicleta agora é do seu irmão, e você fica sem.

Faz tanto tempo que isso aconteceu… mas hoje recordei o fato. Talvez tomar bicicletas emprestadas não seja um ato recomendável. Principalmente se forem de um irmão ou irmã.

Cláudio não podia imaginar que seria linchado. Foi sincero:

— A magrela é sua, guri?

— Não!

Estava certo. Pertencia à irmã, não era ladrão. Apenas um pouco lento na forma de se explicar.

Calmo, sentiu a primeira paulada na cabeça. Depois um chute. Quando muitos outros vieram, já não dava de si. Morreu!

Um dos seguranças agressores chegou para depor pedalando o veículo causador do crime. Porque a sociedade agora é assim. Criminosa e cínica.

E retomo Herberto Helder:

“…De pulmões às costas, a vida, para sempre tenebrosa. A pata do poeta mal ousa agora pedalar. No meio do ar distrai-se a flor perdida. A vida é curta. Puta de vida subdesenvolvida…”.

Ricardo Ramos Filho

É escritor, professor de literatura e produtor cultural. É presidente da União Brasileiras de Escritores (UBE). Autor, entre outros, de Computador sentimental, O livro dentro da concha, Conversa comigo e Cidade aberta, cidade fechada.

Rascunho