Quem entrasse na sala de estar via logo aquela mesa especial no canto. De madeira maciça encerada, móvel pesado, a tampa grossa e lustrosa, nem escura nem clara, distinção na medida certa. Sobre ela, espalhados, os jeguinhos de minha mãe. De todos os tipos, para os gostos mais variados, bonita coleção. Grandes, médios, pequenos, feitos com materiais diversos. Os de porcelana, pintados, talvez fossem os mais românticos.
Um em especial sempre me chamou a atenção. Por ser grande, trazer as cangalhas cobertas de flores coloridas. E os olhos do jeguinho? Vivos, doces, com uma submissão quase santa. Sem dúvida o meu preferido. Mas havia para múltiplos paladares. Outro, muito pequeno, de ferro, bem detalhado, possuía até o penacho, alto e pontudo. Vários talhados em madeira, artesanato rico, trabalhos de sertanejos apaixonados pelo bicho tão querido nordestino.
Eu quase sempre parava e ficava olhando aquela maravilha. Às vezes percebia uma nova aquisição. Podia ser de pano, palha; ela expunha todos, sem fazer diferença.
Virou um hábito na família. Quando viajávamos, ficávamos atentos. De repente, sem aviso prévio, encontrávamos o jumentinho que seria levado de presente. Em uma loja, feiras populares, certa ocasião encontrei vários sobre uma canga estendida na areia de uma praia. Feitos em arame por um rapaz com aparência que lembrava os hippies dos anos setenta. Caros. O artista sabia se valorizar. Comprei logo dois. Belíssimos!
— Por que você gosta tanto de burrinhos em cima dessa mesa, mãe?
Ela ria e não respondia imediatamente. Fazia certo charme.
— Por quê, hein?
— Porque não posso pôr meus filhos em cima dela.
Foi como uma febre. A coleção hoje não existe mais. Aos poucos, D. Marise foi perdendo a vontade de cuidar dos bichinhos, parou de reclamar quando algum, por desventura, caía e se quebrava. A tropa foi minguando sobre o tampo do aparador. Ela espalhou os poucos que sobraram pelos mais variados cantos do apartamento; a burricada deixou de ser exibida em conjunto. Pena!
Eu nunca entendi direito o que faz uma pessoa desejar colecionar alguma coisa. Como jamais possuí o hábito, estranhei aquela disposição acumulativa de minha mãe. O fato de ter tido começo e fim. E lamentei a interrupção. Sem graça andar por aí sem procurar jeguinhos para D. Marise. Era um hábito prazeroso.
Gosto de livros. Além de ganhar muitos, existe a compulsão de adquiri-los. Entrar em livrarias é sempre um desafio; dificilmente saio sem carregar comigo algum volume. Mas não me considero um colecionador de livros. Orgulho-me de minha biblioteca, mas bibliotecas não podem ser chamadas de coleções de livros. Ou será que podem?
O fato é que se aproxima o Natal. Espalham-se pela cidade presépios, e neles sempre existem os jericos. Afinal, eles carregaram Maria e o menino Jesus. Quando os vejo, sinto falta dos jeguinhos de minha mãe.