Orelha

A morte de um cão expõe a engrenagem de parte de uma sociedade que educa para a violência, naturaliza privilégios e prepara jovens para um futuro sem humanidade
Ilustração: Taise Dourado
02/02/2026

Não sou sujeito demasiadamente voltado aos animais. Não os tenho em casa, dedico meu amor exclusivamente às pessoas. Obviamente, respeito os bichinhos, de maneira geral, acho os filhotes bonitos, muito mais do que os humanos, e seria incapaz de fazer-lhes uma violência. Aliás, considero qualquer demonstração de força ato de incivilidade. Não fomos feitos para bater, nem para apanhar.

Por mais que tentemos ficar alheios às causas de emoção nos meios de comunicação, no meu caso até por questão de sobrevivência, pois a natureza cruel das notícias costuma me deixar abalado, muitas vezes não escapamos às vilezas estampadas nas manchetes. O caso do cãozinho Orelha chocou-me profundamente. Por vários motivos. A monstruosidade ocorrida é um retrato fiel da sociedade mundial, nossos jovens preparam-se para marchar em direção ao tempo distópico que se anuncia. Um futuro em que não há futuro. Assassinos em série, exatamente como vemos nos filmes, treinam nas praias de Santa Catarina. Torturam primeiro cachorros inocentes, para mais tarde cometerem feminicídios, latrocínios, tudo com o beneplácito de um sistema que protege os mais ricos, o tal do capitalismo selvagem. Põe selvagem nisso!

Pelo que li, Orelha era um pet comunitário. Criado pela gente simples do seu entorno, animal já idoso, inofensivo, fazia a alegria de algumas crianças locais, era amado por todos. Só que as crias dos donos do poder, daqueles abastados que sonham com carrões ao som de música sertaneja, não gostam de nada usufruído por grupos. São criadas aprendendo, desde muito cedo, a privilegiar o individual. Irão crescer desejando a solidão das competições, empenhados em vencer disputas seja lá do jeito que for, usando os meios possíveis e impossíveis, legais ou não. O importante é chegar em primeiro lugar, e chamarão o resultado duvidoso de meritocracia. Serão recompensadas com viagens à Disney. Mas, antes de viajar, lavarão as mãos manchadas de sangue.

Nos Estados Unidos, país em que um dia houve democracia, observarão excitados os desfiles armados das tropas Gestapo do ICE. E, se por acaso derem com alguma agressão, os meninos terão seus primeiros orgasmos, saudarão os fascistas como gente deles, irresponsavelmente felizes. Pois irresponsabilidade é a marca de suas vidas.

Quando voltarem, se unirão em tropas de elite, comandos de filhinhos de papai preparados para continuar suas artes. Marciais. E, especialistas que são em bullying, cercarão algum colega boa gente, bom aluno, daqueles que sempre tiram as melhores notas, e exercerão a violência aprendida desde sempre. Será muito mais gostoso, então, trucidar um semelhante. Matarão por gostar de matar, e por poderem, estarem autorizados. Talvez também enfiem um prego na cabeça do companheiro de classe, o mesmo instrumento de aço que violentou o crânio de Orelha. Mas serão perdoados. São apenas crianças, não sabem o que fazem.

Ricardo Ramos Filho

É escritor, professor de literatura e produtor cultural. É presidente da União Brasileiras de Escritores (UBE). Autor, entre outros, de Computador sentimental, O livro dentro da concha, Conversa comigo e Cidade aberta, cidade fechada.

Rascunho