Terça-feira. Costumo almoçar na casa de minha mãe. Momento nosso, aproveito para colocar a conversa em dia. É preciso ter paciência. Mesmo com o aparelho auditivo, é necessário insistência para que o coloque, ouve mal. Preciso repetir as frases, falar alto, algumas vezes mudo de assunto quando percebo que o caminho da prosa não evolui. Aos 96 anos, embora lúcida, desconfio haver em alguns casos certos tropeços de cognição. Frequentemente o entendimento se torna difícil, ela me olha como se as frases emitidas fossem um troço completamente sem nexo. Então prefiro recuar, fazer um intervalo mais ou menos significativo, mergulhar em um silêncio conveniente, dar-lhe tempo para que reorganize as ideias. Retomamos logo depois e ela nem percebe a interrupção. A memória recente não ajuda. Muitas vezes ela se esquece do tema abordado, há certa conveniência nos lapsos.
Posso então fazer perguntas ligadas ao passado dela. O pretérito sempre chega com força, carregado de saudade, ela adora falar sobre coisas de sua época. Um namorado da juventude, o dia em que a Segunda Guerra terminou — era meu aniversário, em 7 de maio de 1945, eu completei quinze anos —, a mudança da Tijuca para Copacabana, ou a vinda para São Paulo em 1958. Traz então riqueza de detalhes, tudo gravado de forma intacta em suas reminiscências. Aí, talvez trazida por uma lembrança fresquinha, solta no ar uma indagação estranha:
— Quem compôs Maringá?
E como desconheço a resposta, recorro imediatamente ao celular. Rapidamente consigo detalhes. Enquanto procuro, ela canta. A voz já não tão limpa de outrora, um pouco tremida, mas ainda afinada como sempre foi:
Maringá, Maringá,
Depois que tu partiste,
Tudo aqui ficou tão triste,
Que eu garrei a maginá:
Maringá, Maringá,
Para havê felicidade,
É preciso que a saudade
Vá batê noutro lugá.
Ela declara achar muito bonita a simplicidade do “garrei”, confessando também sentir saudade.
— Envelhecer, meu filho, é sentir falta o tempo todo, a solidão como companheira. Todo mundo que eu conheci em meu tempo já partiu. Só fiquei eu para semente.
Retomo a questão. Muito por ficar invariavelmente embaraçado com o rumo da queixa. Deve ser mesmo um terror a sensação de ser derradeiro.
— Foi um médico e compositor chamado Jaubert de Carvalho, mãe. Nunca ouvi falar.
Sorri informando que ele foi seu médico. Era um sujeito delicado e simpático. Afirma ter ficado toda prosa por receber em casa o autor da música.
— A gente tinha piano. Ele sentou-se no banquinho e tocou lindamente.
Explico que a música fez sucesso em 1932, na voz de Gastão Formenti. Maringá nasceu da junção do nome de uma cabocla chamada Maria com a cidade paraibana de Ingá. Surgiu devido a conversas sobre a seca do Nordeste entre o autor e o político Ruy Carneiro. A cidade paranaense de Maringá, com o desenho planejado de cidade-jardim que tem hoje, nasceria em 1947, em homenagem à música.
Mamãe acha interessante a história e canta mais um trechinho:
Antigamente
Uma alegria sem igual
Dominava aquela gente
Da cidade de Pombal.
Mas veio a seca
Toda chuva foi-se embora
Só restando então as água
Dos meus óio quando chóra.
Dia de semana. O trabalho chama. Despeço-me. Mãe vem até a porta em seu passinho arrastado, trêmulo, segurando nos móveis que lhe servem de apoio. Carinhosa, me beija, faz um afago em meu rosto. E me deseja cuidado.
— Você é muito bravo, meu filho. Em época de eleições fico preocupada, sei que está sofrendo e não mede as palavras. Agora só tenho um filho homem. Não posso perder também você.
Com os olhos úmidos de anciã, refere-se ao meu irmão. Ele partiu há dois anos. Mais um a fazer falta o tempo todo.
Para nós todos!