Imaginem um jovem enviando um texto para um crush começando assim: Escrevo-te estas mal traçadas linhas, meu amor… Seria ridicularizado, afastaria eventual pretendente, não teria o menor cabimento.
Mas houve um tempo em que seria normal. E não muito distante. Em meados dos anos sessenta, um sucesso de Erasmo Carlos, chamado A carta, começava assim e continuava, para horror de muitos de agora, com a seguinte justificativa: Porque veio a saudade visitar meu coração. Foi muito cantado, todo mundo conhecia, ninguém estranhou os dizeres nem o romantismo da música.
Houve um tempo de cartas, não há mais.
Quando seu Carlos, o carteiro, aproximava-se do portãozinho de nossa casa na alameda Itu, a alegria era geral. Um negro forte, mais para o pesadão, sempre sorridente, arriava a sacola pesada e conversava conosco, com quem chegasse primeiro. Sabia falar com crianças ou adultos, uma simpatia.
Tínhamos nos mudado do Rio de Janeiro para São Paulo na década de cinquenta. Avós, tios e tias, primos, todos viviam longe. Ansiávamos quase obsessivamente por notícias. As cartas traziam o afeto dos parentes distantes; eram lidas com emoção, curiosidade, alegria. Por meio delas, retomávamos um pouco da convivência impossível desde a troca de cidades. Ausências apenas contornáveis nas férias, Natais ou em feriados mais extensos.
Mamãe vinha lá de dentro, sorridente. Trazia, em uma pequena bandeja, forrada com uma toalhinha branca de linho bordada, um cafezinho com bastante açúcar — já conhecia a preferência do funcionário dos Correios, e um copo de água bem gelada. Ele era cercado de gentilezas. Além de excelente sujeito, carregava as linhas escritas por nossos queridos. Quantas vezes não tirou do bolso um pirulito e me deu.
Houve um tempo de cartas, não há mais.
E, como escrevo e sou leitor, lamento que as missivas tenham se tornado pré-históricas. Ninguém jamais lerá um livro com a correspondência entre Itamar Vieira Júnior e Conceição Evaristo. Tenho na estante, e adorei, as linhas trocadas entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Será impossível conhecer como seria uma obra epistolar construída com textos entre Natalia Timerman e Andréa del Fuego. Existem obras adoráveis com cartas de Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Graciliano Ramos. Tudo isso, parece, teve fim. Porque houve um tempo de cartas, não há mais.
E, para terminar, retorno ao Erasmo:
Do sempre, sempre teu…