Talvez tenha chegado a hora de a gente refletir um pouco sobre o pedido de desculpas. Nos acostumamos, desde a infância, a receber o carinho de nossos pais simplesmente nos retratando, automaticamente, sem pensar muito no que havíamos feito.
Eram outros tempos. O machismo já anunciava um futuro em que os feminicídios ganhariam corpo. Em um sucesso, por exemplo, de Dorival Caymmi, o enorme compositor se aborrecia porque a mulher havia se pintado. E cantava:
— E, quando eu me zango, Marina, eu não sei perdoar.
Mais tarde, Vinicius de Moraes diria:
— As muito feias que me desculpem, mas a beleza é fundamental.
Como se quem determinasse os padrões de beleza fossem os homens, e ela, a graça, fosse única, sem margens para gostos diferentes.
Em casa, rapidamente as coisas mudaram. Eu era muito danado, vivia cometendo deslizes e depois desejava que aceitassem minhas escusas. Um dia, mamãe recusou:
— Não aceito, e você está de castigo! É muito fácil fazer errado e depois querer seguir em frente como se nada houvesse sido feito. O melhor é refletir, pensar bem antes de fazer, para não precisar, toda hora, querer a indulgência da gente. É muito feio a pessoa, todo tempo, precisar estar se desculpando.
Aprendi que o difícil é fazer certo da primeira vez. Viver de acordo com uma conduta que demonstre que temos princípios, ética e que nos norteamos por procedimentos pertencentes a um ideário interno ilibado.
O feminicida em potencial, depois de violentar a companheira, geralmente se mortifica, deseja ser anistiado de sua ação criminosa, implora o beneplácito da companheira, para depois repetir a violência e, muitas vezes, acabar reiterando a ação com ainda maior crueldade, acabando por se tornar um homicida. Não à toa, a etimologia da palavra remete ao fato de um homem tirar a vida de outro ser humano.
E já que falamos em origem da palavra, podemos pensar na do vocábulo desculpa. De origem latina, junta o prefixo des-, que significa afastamento, negação ou inversão, com culpa — erro, delito, falta. Qualquer um pode vir a público negar o delito ou a falta. Mas não podemos perder de vista o fato de que se pode aceitar ou não a solicitação.
Quando a maior emissora de televisão do país erra deliberadamente com a intenção de prejudicar um candidato à presidência, está cometendo violência grande demais. É quase uma tentativa de golpe. Não poderia ter cometido tal crime. E, portanto, não pode haver desculpas.