Desculpas

Da infância à política, crônica examina o pedido de desculpas e questiona seus limites éticos diante de erros graves e reincidentes
Ilustração: Kleverson Mariano
30/03/2026

Talvez tenha chegado a hora de a gente refletir um pouco sobre o pedido de desculpas. Nos acostumamos, desde a infância, a receber o carinho de nossos pais simplesmente nos retratando, automaticamente, sem pensar muito no que havíamos feito.

Eram outros tempos. O machismo já anunciava um futuro em que os feminicídios ganhariam corpo. Em um sucesso, por exemplo, de Dorival Caymmi, o enorme compositor se aborrecia porque a mulher havia se pintado. E cantava:

— E, quando eu me zango, Marina, eu não sei perdoar.

Mais tarde, Vinicius de Moraes diria:

— As muito feias que me desculpem, mas a beleza é fundamental.

Como se quem determinasse os padrões de beleza fossem os homens, e ela, a graça, fosse única, sem margens para gostos diferentes.

Em casa, rapidamente as coisas mudaram. Eu era muito danado, vivia cometendo deslizes e depois desejava que aceitassem minhas escusas. Um dia, mamãe recusou:

— Não aceito, e você está de castigo! É muito fácil fazer errado e depois querer seguir em frente como se nada houvesse sido feito. O melhor é refletir, pensar bem antes de fazer, para não precisar, toda hora, querer a indulgência da gente. É muito feio a pessoa, todo tempo, precisar estar se desculpando.

Aprendi que o difícil é fazer certo da primeira vez. Viver de acordo com uma conduta que demonstre que temos princípios, ética e que nos norteamos por procedimentos pertencentes a um ideário interno ilibado.

O feminicida em potencial, depois de violentar a companheira, geralmente se mortifica, deseja ser anistiado de sua ação criminosa, implora o beneplácito da companheira, para depois repetir a violência e, muitas vezes, acabar reiterando a ação com ainda maior crueldade, acabando por se tornar um homicida. Não à toa, a etimologia da palavra remete ao fato de um homem tirar a vida de outro ser humano.

E já que falamos em origem da palavra, podemos pensar na do vocábulo desculpa. De origem latina, junta o prefixo des-, que significa afastamento, negação ou inversão, com culpa — erro, delito, falta. Qualquer um pode vir a público negar o delito ou a falta. Mas não podemos perder de vista o fato de que se pode aceitar ou não a solicitação.

Quando a maior emissora de televisão do país erra deliberadamente com a intenção de prejudicar um candidato à presidência, está cometendo violência grande demais. É quase uma tentativa de golpe. Não poderia ter cometido tal crime. E, portanto, não pode haver desculpas.

Ricardo Ramos Filho

É escritor, professor de literatura e produtor cultural. É presidente da União Brasileiras de Escritores (UBE). Autor, entre outros, de Computador sentimental, O livro dentro da concha, Conversa comigo e Cidade aberta, cidade fechada.

Rascunho