Alma fria

A tristeza de um despertar provoca reflexões sobre a felicidade, a dor de existir e o desejo paterno de que os filhos encontrem aquilo que ele desconheceu
Ilustração: Velho Triste (No Portão da Eternidade), de Van Gogh
26/10/2026

Há um verso, música de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, em que o poetinha diz: “Tristeza não tem fim, felicidade sim”.

Consigo entender em parte a intenção do artista. Tristeza é um conceito concreto, a gente sente por dentro, dói, magoa. Felicidade, contudo, é abstração. Difícil definir, dizer o que é. Tente! Como percebê-la extinta? Qual a maneira de se avaliar o remate da serenidade?

— Sabe, minha paz interior chegou aos estertores — diz o infeliz.

Todas as variáveis juntas: alegria e bem-estar, contentamento, satisfação, prazer, regozijo, júbilo, euforia, bem-aventurança, tudo isso somado não explica direito o sentimento imaterial, impalpável, intangível que o poeta afirma poder cessar.

O que seria, exatamente, a felicidade? E o epílogo dela?

Hoje acordei triste, profundamente. Quando abri os olhos e notei a necessidade de me levantar, amaldiçoei o dia pela frente. Arrastei o corpo prostrado para fora das cobertas, sentei-me na beirada do colchão, busquei os chinelos e deixei o quarto. Vaguei pelos cômodos da casa feito sonâmbulo, sentindo a alma fria e sem ter ninguém para dançar. Abatido, fraco, esmorecido, desinteressado de tudo, um choro contido desejando explodir.

É ruim quando o desalento surge assim, acontecimentos não desejados disparando dentro da gente desejos suicidas. A depressão comendo nosso espírito, voraz, apetite cruel cutucando o transtorno.

Viver é também assim. Quando olhamos o espelho, há lá uma barata, Gregor Samsa. Mesmo que Kafka tenha descrito o inseto horripilante como uma criatura monstruosa de dorso marrom e jamais citado a popular cascuda, estamos lá! Bicho imundo, as patinhas se mexendo. Desumanizados.

Quando a tristeza chega assim avassaladora, garantindo-se perene, sentimos o coração pesado, um frio terrível em nossa vontade.

Então o futuro se desfaz em sina. E nunca surge o planejado, o traçado torna-se esboço.

Na infância, meu pai tinha um sonho para os filhos. Meu irmão e eu achávamos estranho o desejo de passar para os descendentes vontade tão dele. Não se consegue transferir anseios. Mas o velho queria, impunha, cobrava da gente como se pudéssemos cumprir com o trato assim combinado.

— Vocês só têm uma obrigação, nunca se esqueçam dela! É muito importante para mim. Meu mais inapelável desejo: precisam ser felizes!

Justo ele, que nunca soube o que era felicidade. A gente também não.

Tristeza não tem fim.

Ricardo Ramos Filho

É escritor, professor de literatura e produtor cultural. É presidente da União Brasileiras de Escritores (UBE). Autor, entre outros, de Computador sentimental, O livro dentro da concha, Conversa comigo e Cidade aberta, cidade fechada.

Rascunho