Este mês de outubro em Lisboa parece ter sido anexado pelo verão. Um verão imperialista. Assim como o último inverno, que não teve constrangimento em invadir boa parte do mês de março, ou ao menos contaminá-lo com suas chuvas intermináveis. É como se verão e inverno tivessem feito um pacto e incorporado, respectivamente, territórios do outono e da primavera.
Neste mundo de clima extremo, saio à rua, e o que vejo é a paisagem urbana do meu bairro, salpicada de formas humanas. Um cenário à espera de que algum figurante se desprenda do limbo e se torne protagonista desse dia.
Enquanto nenhum personagem humano chama minha atenção, observo os veículos de passeio a caminho do trabalho. Produzem um barulho considerável, mas percebo que são amplamente superados por um caminhão de lixo que recolhe as sobras da noite que passou. O ronco brabo do motor se associa ao estrépito do sistema de compactação de lixo. Enquanto há carros particulares que praticamente eliminaram o ruído, a ponto de permitir aos ocupantes ouvir Bach como numa sala de concerto, o avanço tecnológico não conseguiu — ou não quis — erradicar certos barulhos.
Antes que eu possa formular alguma teoria sobre a questão, entro na academia de ginástica e logo me deparo com o rapaz da limpeza, que empurra pelo chão um aspirador de pó com barulho desproporcional a uma atividade tão corriqueira. Até mesmo a horrível música bate-estaca é engolida por ele. Se até armas e instrumentos de percussão podem ter silenciadores, por que não equipamentos, digamos, “do bem”, manipulados no cotidiano por pessoas comuns? O fato, concluo, é que, se a tecnologia é capaz de produzir silêncio, esse não chega até todos com a mesma facilidade.
De volta ao ar livre, encontro outro tipo de bate-estaca: a máquina que crava estacas no solo, da qual a música ouvida na academia empresta seu nome. E ainda, cúmplices na mesma empreitada, britadeiras, martelos hidráulicos, serras de concreto e rolos compressores, que cortam, trituram, perfuram e esmagam. Os ruídos do trabalho calam as vozes de quem passa e de quem o executa. Velhos autocarros a diesel arrancam rosnando, na contramão dos veículos privados.
Retorno para casa ainda pensando em barulhos, os verdadeiros protagonistas dessa caminhada. Um avião passa voando baixo — esse sim, um estrondo à altura do seu tamanho e força. Ao entrar no apartamento, ligo minha cafeteira automática. Ela tem as dimensões de um gato doméstico, mas ruge como um elefante-marinho. Quando começa a moer os grãos de café e aquecer a água, toda a comunicação ao redor cessa. Até mesmo os pensamentos se calam.
Por fim, o café cai na xícara. Lembro-me de que certa vez participei de um café literário. Poetas e prosadores liam textos próprios e de outros autores enquanto o café era servido, marca do patrocinador. Mas, quando a cafeteira era acionada, mostrava mais poder de intervenção do que qualquer um de nós. É por isso que os cafés literários não dão certo.