É só a lua

A música de Lô Borges como abrigo contra o desencanto, o luto e a passagem do tempo, quando a vida insiste em se despedir cedo demais
Ilustração: Marcelo Frazão
10/01/2026

Depois de um fim de semana nublado, a segunda-feira amanheceu ensolarada no Rio de Janeiro. O dia parecia promissor, bom para um mergulho ou uma caminhada. E veio a notícia: o Lô Borges morreu.

Faz dois meses. Pus o disco do tênis na vitrola, uma, duas, três vezes. Pensava em todos os shows que vi nos últimos anos. Parque Garota de Ipanema, Teatro Rival, Circo Voador, Jockey. Pensava nas tantas vezes em que tudo, de repente, pareceu feio, embaçado, sem vida, e as canções do Lô foram o lugar — sim, o lugar — onde consegui reencontrar a mim mesmo.

Sonho real, que mandei para uma moça por quem estava apaixonado ali pelos vinte e poucos anos. Meu anjo torto.

A Nuvem cigana, de pó, poeira, movimento. Pensamentos cheios de cor, cabelos de girassol, a vontade de dançar, sempre. E as imagens: a igreja, um muro branco, o rio de asfalto e gente, a chama sem pavio, o velho sinal.

Na Via Láctea, o grão tão pequeno e tão grande que navega no céu, no fundo do azul, esse grão que somos nós.

Se a noite chega, esperar. Saber que outro dia já vem e crer que o corpo vai vencer a manhã. Porque há uma dobra, um clarão improvável e, por isso mesmo, tão bonito, no fundo de toda escuridão.

(Começava a rascunhar algumas linhas sobre o Lô, as palavras vinham como costumam vir, cada uma dando a mão à outra, eis que toca o sinal do WhatsApp. É uma mensagem do meu amigo Bernardo Pilotto: “Lô Borges me lembra você e um show quase vazio no Circo. Outubro de 2018. Grande noite”. Recordo aquela noite e os olhos ficam úmidos.)

“Se eu morrer, não chore, não/ É só a lua”, pedem os versos de Um girassol da cor do seu cabelo. Mas é impossível não chorar.

Há poucos meses, estive em Belo Horizonte. Dei meu jeito de passar lá na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro de Santa Tereza, onde o Lô conheceu Milton Nascimento e começou a escrever a história que todos conhecemos. Ele tinha dez anos; Milton, vinte.

Dois jovens artistas que, sem saber, acabariam por escrever também parte da memória de tanta gente. Aquelas canções meio barrocas, meio roqueiras, estranhíssimas e incríveis, formaram caráter.

O mundo, às vezes, fica bem pestilento. Faz promessas que não vai entregar.

As pessoas, às vezes, se revelam bem perversas. De tão centradas no próprio umbigo, sequer enxergam os destroços que deixam pelo caminho.

Pois é nessas horas que o trem começa a andar. Que os versos e a melodia de uma música do Clube, do Lô, vêm nos dizer: “nada a temer, nada a conquistar”, nada de sentir pavor dos ratos soltos na praça. O lance é achar um lugar no trem.

Angela Ro Ro, Aldir Blanc, Gal Costa, Wilson das Neves, Belchior, Rita Lee, Luiz Melodia, Arlindo Cruz, Jards Macalé. Nossas referências estão partindo, eis a dolorida verdade. A tristeza que a gente sente é por desamparo. De uma hora para outra, aqueles artistas que acompanharam nossa trajetória, que desenharam a trilha sonora das dores e delícias que nos constituem, não estão mais aqui. E essas mortes são também nossas. À medida que eles se vão, é como se a vida estivesse esvaindo em cada um de nós.

“O tempo não para e nem pode esperar”, canta o Lô em Vento de maio. A areia escorre na ampulheta, os discos continuam a girar. O sol já havia se recolhido naquele 2 de novembro quando fui desligar a vitrola. Ao ver a imagem dos velhos tênis de cadarços desamarrados, pensei numa estrela cadente, raio fátuo e luminoso. Um rasgo no céu, um rabisco, um instante de beleza, pura beleza, que irrompe, reluz e, então, desaparece.

Marcelo Moutinho

É autor dos livros  A lua na caixa d’água (Prêmio Jabuti 2022), A palavra ausente (2022), Rua de dentro (2020), Ferrugem (Prêmio da Biblioteca Nacional 2017), Na dobra do dia (2015), e dos infantis Mila, a gata preta (2022) e A menina que perdeu as cores (2013), entre outros.

Rascunho