De onde vêm as ideias?

Ideias literárias surgem de obsessões, afetos e ódios, mas só ganham forma quando encontram, às vezes por acaso, o jeito certo de ser contadas
Ilustração: Italo Amatti
25/01/2026

Não vou fazer suspense com a resposta: as ideias para textos vêm das coisas em que você mais pensa, das coisas que você mais ama ou mais odeia.

A questão é achar o melhor jeito de contar essas coisas. Esse que é o busílis.

Às vezes, esse jeito é óbvio, mas a gente demora para encontrá-lo.

Por exemplo, por esses dias lancei o sétimo e último livro da série Diário do Bolso, que é como se fosse um diário escrito por Bolsonaro.

Como ele foi (finalmente) preso, achei que não me interessaria mais escrever sobre o personagem. Ele estaria inativo, sem novidades ou entrevistas. E é verdade.

Mas os Bolsonaros não se aposentaram. Um filho pediu que os EUA taxassem e atacassem militarmente o Brasil, outro virou candidato a presidente, Michelle falou contra Ciro Gomes, Carluxo pensa em ser candidato ao Senado por Santa Catarina, Renan segue fazendo vídeos (involuntariamente) hilários e o próprio Bolsonaro caiu da cama.

Esses fatos e o fato de ser ano de eleição me davam coceira de voltar a escrever. Mas Bolsonaro já não era um protagonista.

Essa vontade de escrever estava submersa. Mas eu não sabia como trazê-la à tona. Foi quando Matias, meu filho de 12 anos, pediu que eu lhe comprasse o Diário de um Banana 4.

Enquanto pagava pelo livro, comentei: “O Eduardo Bolsonaro podia escrever o Diário de um Bananinha.”

A piadinha foi o estopim. Lá pelas quatro da manhã, quando eu começava a acordar, lembrei do meu comentário e comecei a pensar no Diário de um Bananinha. Seria um título engraçado, mas Dudu não renderia um livro. Rachadinho, digo, Flavinho, como candidato, teria mais coisas para contar. Por outro lado, Carluxo tem um estilo literário, digamos, curioso. E Michelle é uma figura interessante. Daí pensei: e se fosse um Diário dos Bolsos, com todos os Bolsonaros escrevendo de vez em quando, inclusive o patriarca da família?

Essa ideia me pareceu boa e já publiquei uma meia dúzia de três ou quatro textos no Insta (@jrtorero) e no Face. Aliás, até fiz uma página no face para os textos, a Diário dos Bolsos. Mas ela foi suspensa dez minutos depois da primeira publicação. Um recorde! Porém, com paciência de monge, recorri, e a página voltou a ser liberada.

Ou seja, havia um sentimento que eu não sabia como canalizar. E só fui encontrar esse jeito graças a um acaso, a um trocadilho bobo. Se bem que talvez não seja um puro acaso.

Acho que, inconscientemente, a gente fica procurando saídas, formatos, para liberar as ideias. O Diário de um Banana acabou sendo a chave que destrancou a fechadura.

Agora é ver se a ideia dá realmente certo. O Face já ter censurado é um bom sinal. Ser censurado, pela patrulha da direita ou pela da esquerda, é sinal de que você está fazendo alguma coisa diferente, fora da ordem. E isso tem sua graça.

PS: A própria série Diário do Bolso nasceu de um acaso. No dia da posse de Bolsonaro, eu estava tão incomodado que achei que seria bom eliminar a bílis escrevendo um texto. Mas indignação pura é algo que não dá boa literatura. Então olhei meu exemplar do Rascunho daquele mês e ele dizia que o gênero diário estava em crise. Foi o estalo. Fiz o primeiro texto, com Bolsonaro contando como foi maravilhosa a sua posse. E, depois, mais uns oitocentos.

José Roberto Torero

Escritor e roteirista, Torero nasceu em Santos (SP), em 1963. É autor de O chalaça (prêmio Jabuti na categoria romance em 1995) e Os vermes, entre outros. Também é autor de livros de não ficção e de literatura infantojuvenil. Ao lado de Paulo Halm, assinou o roteiro do longa-metragem Pequeno dicionário amoroso.

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