Eis aí um mistério? Mas há pistas para resolvê-lo.
Por estes dias (na verdade, hoje de madrugada), acho que terminei o livro Mapas (obs.: “terminei” é um modo de dizer, porque ele ainda será revisado trocentas vezes, mas acho que a versão básica está pronta). Trata-se de um livro para crianças (e talvez também para adultos) sobre mapas imaginários.
Acho que o terminei porque finalmente fiquei feliz com o texto. Antes, eu tinha certa angústia, uma insatisfação crônica. Agora creio que o conjunto está decente.
A questão é: por que eu acho isso?
Em primeiro lugar, por um motivo prático: agora o livro está mais ou menos no tamanho dos outros livros da coleção (Castelos, Pontes e Árvores). Na verdade, ficou até um pouco maior e pode ser que um ou outro mapa caiam fora.
Outro motivo: agora o livro tem um começo e um fim. Mesmo sendo um livro de contos, há que ter um começo e um fim. Os contos não podem ter uma ordem aleatória. Um tem que servir de abre-alas e outro de encerramento. Eu já tinha o abre-alas, o Mapa fabuloso, que junta num só lugar todas as fábulas e contos de fada. Mas como poderia fechar o livro? Nos outros títulos da coleção sempre há um texto de encerramento que tem a ver com a própria literatura, com o próprio livro. Mas eu não conseguia fazer um mapa sobre mapas ou algo assim.
A solução me foi dada por Emily, uma jovem leitora de Recife que tinha lido os outros livros da coleção e ficou sabendo que eu estava escrevendo o Mapas. Ela me mandou uma mensagem de voz dizendo: “É obrigatório ter um mapa sobre livros”.
Quem sou eu para desobedecer a Emily, que já leu mais de dois mil livros?
Então comecei a pensar sobre o mapa de livros e decidi fazer um mapa-múndi que mostrasse os lugares reais onde se passam as principais histórias para crianças e jovens (na minha opinião). Ou seja, seria um mapa-múndi que incluísse o Sítio do Pica-Pau Amarelo e As Terras Altas da Escócia (onde fica Hogwarts), que mostrasse onde fica a rua Paulo e a vila de Pinóquio, a fazenda de Dorothy e o bairro de Mafalda, a ilha de Robinson Crusoé e a de Pippi Meialonga, a base do capitão Nemo e onde vive Tarzan, a floresta de Bambi e a de Mogli, o trapiche dos Capitães da areia e o quintal de Meu pé de laranja lima.
Isso serviu como contraponto ao Mapa fabuloso e fiquei satisfeito com as pontas do livro. Só faltava algo no meio.
É que eu já tinha mapas sobre formigueiro (que me foi dado por uma formiga mentirosa), sobre o corpo humano (que me foi dado por um verme), sobre o país das guloseimas (por que tudo que eu escrevo tem algo sobre comida?), o mapa do caminho que eu fazia para a escola (e seus terríveis perigos), o mapa sobre o que há sob a cama de uma criança, um mapa do céu, um do tesouro (esse não podia faltar), o mapa do relevo de uma história, o mapa da minha bagunçada mesa de trabalho, mapas de países imaginários, etc… Mas faltava um mapa sobre lugares não mapeáveis. Um mapa fora do mapa. Um pouco de nonsense é bom para manter a insanidade. Então, finalmente, pensei no mapa de Cafundó, um país onde ficam lugares como “o mato sem cachorro” e “o poço sem fundo”, cuja capital é Beleléu, onde fica a Casa do Chapéu (local em que, obviamente, Judas perdeu as botas).
Só aí achei que minhas principais preocupações, aquelas obsessões que perseguem a gente, já estavam satisfeitas.
Enfim, acho que um livro está pronto quando satisfaz algumas questões práticas, como tamanho, e algumas questões estéticas. Mas, principalmente, acho que ele está pronto quando satisfaz uma insatisfação subjetiva, tão subjetiva que faz que com este texto seja inútil.