A vida e as opiniões de Laurence Sterne

Um encontro com Laurence Sterne revela a ousadia de sua escrita, influências duradouras e o valor da irreverência na literatura
Ilustração gerada por IA
12/04/2026

Quando cheguei ao portão do Shandy Hall, em Coxwold, bati palmas. Ele gritou lá de dentro:

— Pode entrar! Estou no escritório.

Fui entrando pela casa. Atravessei uma sala sóbria, com móveis escuros e lareira, e encontrei-o no escritório.

— Senhor Laurence Sterne?

— O próprio.

Como havia muitos papéis e livros espalhados, não me contive e, indelicadamente, comentei:

— Puxa, que escritório bagunçado!

Ele sorriu e disse:

— Vai ver é por isso que meu livro mais famoso vai para frente e para trás no tempo, tem personagens secundários que viram protagonistas, usa breques narrativos, abusa de divagações, tem páginas em branco, páginas desenhadas, salta páginas etc…

— Se foi essa bagunça que fez você desenvolver seu estilo, vou abrir a janela do meu escritório na próxima ventania.

— Você também é escritor?

— Sim. Mas estou aqui como leitor.

— Como me descobriu?

— O Machado de Assis citou você num livro e fui atrás de A vida e as opiniões do cavaleiro Tristam Shandy.

— Ah, Machado de Assis. É um dos que se inspiraram em mim. Também tem a Virginia Wolf, o James Joyce, Orham Pamuk, Salman Rushdie, Nabokov e outros autores menores.

— Sou um desses! Puxa, seu livro foi uma surpresa para mim. É daqueles que a gente lê e pensa: “Poxa, vale escrever assim?”. Parecia que eu estava lendo um cara ultramoderno. Os truques de metalinguagem eram muito criativos. E já têm quase trezentos anos. Você inventou um novo jeito de escrever.

— Não vamos exagerar…

— Não é exagero. Você fez um monte de inovações. Nem acreditei que você era um clérigo do século 18.

— As pessoas não têm uma boa imagem dos clérigos. E geralmente elas têm razão. Não é à toa que meu primeiro livro, Um romance político, foi uma sátira sobre as disputas de poder dentro da igreja anglicana. O livro ficou tão bom que me mandaram queimá-lo.

— E você os queimou?

— Não tive escolha.

— Às vezes fazem isso com livros muito bons.

— Um escritor, se não é odiado por ninguém, fez alguma coisa errada.

José Roberto Torero

Escritor e roteirista, Torero nasceu em Santos (SP), em 1963. É autor de O chalaça (prêmio Jabuti na categoria romance em 1995) e Os vermes, entre outros. Também é autor de livros de não ficção e de literatura infantojuvenil. Ao lado de Paulo Halm, assinou o roteiro do longa-metragem Pequeno dicionário amoroso.

Rascunho