Quando cheguei ao portão do Shandy Hall, em Coxwold, bati palmas. Ele gritou lá de dentro:
— Pode entrar! Estou no escritório.
Fui entrando pela casa. Atravessei uma sala sóbria, com móveis escuros e lareira, e encontrei-o no escritório.
— Senhor Laurence Sterne?
— O próprio.
Como havia muitos papéis e livros espalhados, não me contive e, indelicadamente, comentei:
— Puxa, que escritório bagunçado!
Ele sorriu e disse:
— Vai ver é por isso que meu livro mais famoso vai para frente e para trás no tempo, tem personagens secundários que viram protagonistas, usa breques narrativos, abusa de divagações, tem páginas em branco, páginas desenhadas, salta páginas etc…
— Se foi essa bagunça que fez você desenvolver seu estilo, vou abrir a janela do meu escritório na próxima ventania.
— Você também é escritor?
— Sim. Mas estou aqui como leitor.
— Como me descobriu?
— O Machado de Assis citou você num livro e fui atrás de A vida e as opiniões do cavaleiro Tristam Shandy.
— Ah, Machado de Assis. É um dos que se inspiraram em mim. Também tem a Virginia Wolf, o James Joyce, Orham Pamuk, Salman Rushdie, Nabokov e outros autores menores.
— Sou um desses! Puxa, seu livro foi uma surpresa para mim. É daqueles que a gente lê e pensa: “Poxa, vale escrever assim?”. Parecia que eu estava lendo um cara ultramoderno. Os truques de metalinguagem eram muito criativos. E já têm quase trezentos anos. Você inventou um novo jeito de escrever.
— Não vamos exagerar…
— Não é exagero. Você fez um monte de inovações. Nem acreditei que você era um clérigo do século 18.
— As pessoas não têm uma boa imagem dos clérigos. E geralmente elas têm razão. Não é à toa que meu primeiro livro, Um romance político, foi uma sátira sobre as disputas de poder dentro da igreja anglicana. O livro ficou tão bom que me mandaram queimá-lo.
— E você os queimou?
— Não tive escolha.
— Às vezes fazem isso com livros muito bons.
— Um escritor, se não é odiado por ninguém, fez alguma coisa errada.