Trevas

Uma pane de oito horas transforma o lançamento de um livro em Santos numa conversa à luz do dia sobre amizade, improviso e tempos sombrios
João Gabriel de Lima, autor de “A direita à direita da direita”
20/09/2026

Nossa amizade começa há mais de 15 anos, quando, numa de minhas loucuras mansas, bati à porta da editora Abril propondo publicar um livro nascido de uma revista deles, no caso, a primeira revista da história da Abril, a Realidade. Fui procurá-los protegido e energizado pelos autores do futuro livro, a dupla de mestres da primeira hora da revista, Zé Hamilton Ribeiro e Zé Carlos Marão. Em uma de nossas conversas, todas incríveis e inesquecíveis — logo escrevo outra crônica só sobre esses bastidores —, veio o assunto do prefácio do livro e, sem a menor cerimônia, chegou-se a dois nomes: Mino Carta e Roberto Civita, antigos grandes amigos que se tornaram desafetos nada cordiais. Ficou decidido que eu, como editor da obra, faria o pedido para que cada um deles participasse do livro com um breve texto.

Consegui contato com as duas empresas, Carta Capital e Abril, e, nesta última, pedi orientações ao meu autor e amigo Matthew Shirts, então à frente da National Geographic Brasil, que me sugeriu falar com o editor da revista Bravo!, João Gabriel de Lima. Ele seria o caminho para o pedido do texto do Civita.

Nessa época, por volta de 2008 ou 2009, as reuniões presenciais eram naturais e ainda hoje acho que elas são insubstituíveis: são mais dinâmicas e nelas resolvemos diretamente o que trocentas mensagens não dão conta de resolver. Na reunião, o nosso papo fluiu muito bem. Vi que o João Gabriel adorou o projeto do livro — Realidade Re-vista era o título; digo “era” porque o livro se esgotou. Quem sabe consigamos reeditá-lo em breve? Mas, voltando, João gostou do projeto e se divertiu com a ideia e a ousadia do pedido. Ele me antecipou que faria a sugestão, mas que não tinha poder para me dizer se o Roberto aceitaria, do que eu tinha consciência; afinal, o homem era o dono da empresa, ele decidia o que lhe apetecia fazer. Dali a alguns dias, recebo uma mensagem do João. Bem surpreso, ele me disse que o Civita, além de topar escrever uma abertura para o livro, resolveu escrever outro texto, dessa vez para a Bravo!, contando um pouco sobre a Realidade. O livro saiu e o João foi um dos apoiadores da ideia, o que não era pouco. A partir daí, a amizade se manteve. Vi que ele também escrevia ficção, era um atento estudioso do jornalismo cultural em seus muitos segmentos e, além de tudo, era uma pessoa ponderada, leve e, olha o entrosamento, são-paulino.

E seguimos em parceria. Em uma das edições da Tarrafa, nosso festival de literatura, a Bravo! realizou oficinas de criação em jornalismo literário e, quando o João foi para a revista Época como diretor de redação, também bolamos ideias em conjunto. Os anos passaram e as mudanças vieram. O já amigo se mudou para Portugal e de lá seguia escrevendo para grandes publicações, como Estadão, Folha e revista Piauí, agora também cursando um doutorado, ou doutoramento, como dizem os portugueses, em ciências políticas.

Como faço uma longa visita anual a Portugal, mantemos o hábito do encontro, e isso se repete a cada ano. Num desses encontros, o João foi o meu moderador no evento de lançamento do meu livro na Livraria da Travessa, em Lisboa; foi uma bela noite de janeiro. Quando vi que ele estava lançando uma nova obra, logo entrei em contato. Seu novo projeto estava nascendo: um livro de artigos e ensaios políticos muito atuais e — por que não? — assustadores. A direita à direita da direita (Faria e Silva) chega ao mercado do Brasil às vésperas de uma eleição para presidente; nada mais antenado. Conseguimos uma janela dentro da agenda corrida do autor e recebemos o amigo numa tarde chuvosa em Santos, na Realejo Livros, é claro. Eu só não esperava que estivéssemos sem luz.

Sim, sem nenhum comunicado, a querida (sic) CPFL nos deixou no escuro total por mais de oito horas.

Não, não era uma emergência; era uma manutenção para o bairro mais comercial da cidade num dia de sábado.

Recebo essa notícia do meu funcionário quando estou a caminho da livraria; nesse mesmo momento, recebo a informação de que o João estava se aproximando.

Desço do carro e avisto o João à porta da livraria, aberta e às escuras, e vejo que ele começa tranquilamente a andar na direção contrária; afinal, era cedo ainda, o evento seria dali a duas horas. Corro para chamá-lo, com a cara no chão pelo ocorrido, e ficamos num microcafé que fica do outro lado da rua, quase de frente para a livraria.

Enquanto conversávamos no café, que tinha luz, eu mirava toda a galeria onde fica a livraria às escuras, e o tempo passando.

Em dado momento, não aguentei e fui investigar melhor o que se passava. Achei os funcionários da CPFL a uma quadra e vi um cenário complexo. Eles estavam trocando um poste de energia. Fiz breves perguntas e vi que a coisa não se resolveria em menos de algumas horas.

Ao reencontrar o João, traçamos o nosso plano: faríamos o evento de qualquer maneira. Do café, víamos o público chegando. Atravessamos a rua brincando: não, não deixei de pagar a conta. Ou vocês acham que toda a galeria deixou de pagar a conta de luz?

Descemos as cadeiras do nosso pequeno auditório no primeiro andar e colocamos todas, de forma bem improvisada, perto umas das outras, buscando a luz natural na entrada da livraria, protegidos pelo toldo. Lutamos contra o ruído natural da rua, sempre agitada. João fez uma fala ótima, como sempre, e o público pôde adquirir os livros na calçada, com a bateria ainda remanescente da máquina de cartão. Não tenho palavras para agradecer ao amigo — ou melhor, tenho estas, deste texto —, mas, mesmo assim, repito, simplesmente e de forma direta: obrigado, João.

Há alguns anos, já tinha vivido algo parecido quando recebi pela primeira vez o jornalista Laurentino Gomes. Foi no teatro do Sesc que, de repente, falhou a energia. Também nos adaptamos e, quando a luz voltou, decidimos continuar a apresentação sentados onde estávamos, com as pernas balançando na beira do palco, perto do público. Foi inesquecível.

Essa é a vida, que se apresenta com surpresas diante das quais vamos entendendo como atuar, com alguma capacidade de improviso e com a grande força da camaradagem. E, pensando aqui no livro do João, que nos alerta contra a ameaça da direita radical no mundo, e no fato de que muitas vezes fazemos a associação dos governos autoritários com as trevas, vejo que nada foi mais simbólico do que o que aconteceu no dia do evento.

A única luz que havia era a luz do conhecimento em meio às trevas que tentam nos atingir.

José Luiz Tahan

É livreiro, editor e idealizador do festival Tarrafa Literária. Autor da antologia de crônicas Um intrépido livreiro nos trópicos (Vento Leste).

Rascunho