O Brasil fora da lei

A importância da “Lei do preço fixo” para o fortalecimento da convivência entre as livrarias e seus leitores
Ilustração: FP Rodrigues
01/06/2024

A livraria de rua que criei, a Realejo, completou 23 anos em maio. Nascemos numa universidade, mas com porta pra rua, vivendo na cidade, fazendo parte da paisagem urbana, se fazendo notar para os leitores e os ainda que um dia serão leitores. Depois de dois anos, encontrei um novo ponto, dessa vez totalmente de rua e vizinha da livraria mais tradicional de Santos: a primeira loja da Martins Fontes, família santista dedicada ao livro há mais de sessenta anos.

Pensei: onde seria melhor montar uma livraria senão perto de uma outra livraria? Sabia que a minha identidade era diferente da vizinha e acreditei na intuição. Parece que está dando certo. Nunca vi nos meus vizinhos uma ameaça de concorrência. Sempre acreditei que quanto mais livrarias, melhor, cada uma delas olhando pra identidade da outra, aprendendo e moldando o seu perfil em busca do leitor, e o leitor, pela sua vez, ganha de presente lugares mágicos, de troca, de encontro e de lazer.

Em 2013 começa a história da Amazon no Brasil, um gigante do varejo que não vemos, mas sabemos que ele nos vê, um varejo de tudo o que você imaginar, de lava-louças a pneus de trator, de lanternas a remédios, de portas e janelas a livros, sim, livros, um dos artigos mais vendidos na gigante mundial, mesmo sabendo que a gigante não tem lá grande apreço pelos livros nem pelos leitores. A gigante dá descontos e os descontos se tornam o destaque, se tornam a ameaça às livrarias, aos livreiros e ao leitor mais atento.

Vamos comentar sobre o leitor atento, o leitor que tem a sua forma mais pessoal de buscar suas novas leituras. Numa livraria há os livros que foram lançados recentemente e há os clássicos ou os long sellers, os livros discretos, chamados de fundo de catálogo, livros relevantes e não tão lembrados pela aceleração dos tempos de lucro rápido. O leitor de gosto mais apurado será atendido por um livreiro e juntos chegarão aos autores que vão trazer suas novas descobertas, e assim a livraria segue a sua marcha de construir leitores, muitas vezes famílias, enquanto tomam um café e se divertem entre livros.

Na gigante a coisa é distorcida, o que o leitor busca é o desconto, o preço, o atalho. A gigante, com cada vez mais poder, deixa o foco fechado e com o tempo quer ser cada vez mais aguda. O que ela fará? Diminuirá a variedade de títulos para não distrair o consumidor, o algoritmo vai te guiar sem sutilezas, você vai ver cada vez títulos mais parecidos, já reparou como é no streaming? Parece que os filmes e séries são tão parecidos, penso. Com esse funil, as editoras serão guiadas indiretamente a ser mais agudas em publicar livros de giro rápido, desprezando os títulos mais discretos, pronto, o leitor foi esquecido no caminho.

Sobre pagar menos na gigante, sim, você paga menos, mas, sempre tem um mas, a gigante oferece mais desconto do que uma livraria e já há um custo Amazon vigorando porque o editor se viu obrigado a pensar nesse desconto maior exigido pela gigante. Em mais de 25 países do mundo já entrou em vigor “A lei do preço justo” ou “Lei Cortez” ou “Lei do preço fixo”, como preferirem. Nesses países qual fenômeno se deu após a lei vigorar? Os preços baixaram. As livrarias puderam concorrer de forma sadia dando pequenos descontos em livros já com preço mais baixo, os leitores ganharam e as cidades mantiveram esses espaços de descobertas e de encontro de pessoas que buscam o conhecimento.

Vigorar esta lei no Brasil é urgente, e vocês não sabem da melhor: a própria gigante dá de ombros pra lei, ela não se abala, afinal veja a quantidade de produtos e variedade de itens vendidos. Sei que não ganharemos de aniversário a chegada da lei no Brasil, mas continuo acreditando que logo ela chega e enquanto isso vamos comemorar a nossa existência. Espero vocês para brindarmos os 23 anos sugerindo livros discretos aos amigos, longa vida às livrarias.

José Luiz Tahan

É livreiro, editor e idealizador do festival Tarrafa Literária. Autor da antologia de crônicas Um intrépido livreiro nos trópicos (Vento Leste).

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