Confesso que a ideia inicial era falar sobre ano novo, ou melhor, sobre a virada de ano e todas as mil e uma superstições envolvendo cores e frutas e ondas, que me acossam e exaurem desde sempre.
Dizimada pelo infalível calor carioca, a ideia de escrever sobre a pressão do dia 31 de dezembro caiu — derreteu seria o termo apropriado —, e me vi, mais uma vez, tentando traduzir o verão que desembarcou no Rio enlouquecendo as cigarras.
Conformada, comprei um sorvete e entrei no cinema para assistir Sentimental value, o novo filme de Joachim Trier. Desde então, estou monotemática. Obcecada pelas interpretações, seus silêncios e olhares, pelos diálogos, pela trilha, pela fotografia. Tudo alinhavado com perfeição.
A pior pessoa do mundo, filme anterior de Trier, já me encantara. Assisti duas vezes e poderia assistir outras tantas. Muito pela atriz Renate Reinsve, por Oslo, cidade que conheci em 2003 e para onde sempre desejei voltar, mas, sobretudo, pela originalidade de Trier ao retratar a vida como ela é, as pessoas como elas são. Ambíguas, imperfeitas, cobertas de solidão, dúvidas e inseguranças.
Julie, personagem millennial de Renate em A pior pessoa do mundo, tem um pai distante, acha que não quer ter filhos e, aos trinta anos, não sabe bem o que quer ser quando crescer. Numa das cenas mais inspiradas, tudo ao seu redor congela, como numa brincadeira de estátua. O tempo, para ela, toma coragem e corre, pelas ruas imóveis de Oslo, até o novo amor.
Em Sentimental value, Renate Reinsve é Nora, jovem atriz que tem uma crise de pânico antes de entrar no palco nos primeiros minutos do filme. Nora interpreta Nina, em A gaivota, de Tchekhov. Nora e Nina são jovens atrizes atormentadas, talentosas e inseguras. Ambas vivem um amor não correspondido e mantêm uma relação atritada com o pai.
Nora é ainda — e me parece que não por acaso — o nome da personagem central da peça Uma casa de bonecas, de Henrik Ibsen, dramaturgo norueguês. A casa da família de Gustav Borg, pai de Nora e cineasta consagrado, é o cenário principal de Sentimental value. Nessa casa, a mãe de Gustav, avó de Nora, torturada pelos nazistas durante a guerra, nasce e se mata. Nessa mesma casa, Nora cresce, filha de um pai ausente e de uma mãe deprimida. Uma casa onisciente, personagem da redação escolar de Nora na infância, locação do próximo filme de Gustav.
O filme começa com A gaivota e termina com Hamlet. Nora interpreta o príncipe dinamarquês, assombrado, como ela, pelo fantasma do pai. Se em Hamlet o pai surge pedindo vingança, em Sentimental value o pai tenta uma reaproximação por meio do seu novo filme.
No quarto ato da peça de Tchekhov, que não aparece no filme de Trier, Nina diz o seguinte a Konstantin Trepliov: “Agora eu sei, Kóstia, agora eu compreendo que no nosso trabalho, representando no palco ou escrevendo, o que importa não é a glória, não é o esplendor, não é aquilo com que eu tanto sonhava, mas sim a capacidade de suportar. Aprenda a carregar a sua cruz e acredite. Eu acredito e, desse jeito, nem sofro tanto e, quando penso na minha vocação, não sinto medo da vida”.
É a partir desse mosaico de referências — A gaivota, Uma casa de bonecas, Hamlet —, de histórias dentro de outras histórias, todas ligadas de alguma forma, que Trier constrói uma narrativa deslumbrante. Sentimental value trata da complexidade e das sombras das relações familiares. De como cada um vive e sobrevive à sua história. Do simbolismo adquirido por objetos — como o vaso vermelho ao qual Nora se agarra ou as caixas de som resgatadas por Gustav — e por lugares, como a casa marcada pela rachadura que a percorre de cima abaixo, por tudo o que foi vivido dentro dela: suicídio, separação, abandono.
Carregada de valor sentimental, há gerações na família, a casa é esvaziada, restaurada e vendida. Cenário do roteiro escrito por Gustav, é reproduzida no set de filmagem, parte essencial da história de uma mãe suicida interpretada por Nora — que, no passado, tentou o suicídio.
“Corta!”, exclama Borg, interrompendo o plano-sequência do filme dentro do filme. Suspendendo a ação. Como ocorre em A gaivota, a cena final não mostra o suicídio. “We just hear the sound”, explica Gustav durante um ensaio. Há uma movimentação da equipe no set. Alheios ao entorno, comovidos com o que acabam de reviver, pai e filha se encaram a uma certa distância, sorriem e se aproximam. Fade out.