Passarim

A visita diária de um pequeno pássaro transforma o cotidiano e evoca afeto, liberdade e o delicado aprendizado em torno dos filhos
Ilustração: Eduardo Mussi
03/04/2026

Tem umas duas semanas que ele apareceu pela primeira vez. Entrei no banheiro e lá estava o visitante inesperado, em cima da bancada da pia, cantando. Dei um grito curto, sem pensar, diante daquele ser bicudo. Assustado, alçou voo até o batente da janela, pareceu refletir durante alguns segundos e sumiu entre as copas das árvores.

Desde então, assim que amanhece, sou acordada por uma cantoria eufórica, amplificada pela acústica do banheiro. Abro a porta e lá está ele, peito amarelo estufado, ora na bancada, ora sobre o parapeito. Olha para mim, dá bom dia e avoa.

Após os primeiros encontros, confesso ter imaginado o banheiro coberto de cocô de passarinho, ter me preocupado com a escova de dente e com a escova de cabelo. Tive receio de que o visitante voasse para dentro de casa, ficasse preso, aflito, se machucasse. Como faríamos para ajudá-lo a encontrar o caminho e alçar voo? Por precaução, passei a manter a porta do banheiro fechada e, a cada vez que a abria e dava com ele, renovávamos o assombro recíproco, estranhando a presença e a movimentação um do outro. Eu recuava, dando um passo para trás; ele batia as asas até a janela, me olhava, cantava um tiquinho e sumia.

Imaginei se tratar de coisa passageira; talvez as flores sobre a bancada fossem o chamariz. Tirei o vaso. O visitante de peito amarelo continuou a aparecer para visitas matutinas curtas, num vaivém entre o nosso banheiro e a mata lá fora.

“Passarinho que entra pela janela de apartamento significa o quê?” Dei um Google. Só coisa boa. Apaziguada, lembrei da borboleta amarela que roça os cabelos do Rubem Braga, na esquina da Graça Aranha com Araújo Porto Alegre: “Fiquei a olhá-la. Tão amarela e tão contente da vida, de onde vinha, aonde iria?”, indaga ele. Voltei ao Google. “Passarinho de peito amarelo.” Pelas imagens, parece que meu visitante é uma cambacica. “A cambacica, com seu comportamento ágil e presença constante em jardins, é vista no plano espiritual como um símbolo de alegria, adaptabilidade e renovação. Sua presença traz mensagens de otimismo, sugerindo a necessidade de nutrir a alma com positividade, resiliência diante de mudanças e a importância de encontrar a doçura na vida cotidiana.” Cogitei consultar a amiga apreciadora de pássaros — quem sabe um ornitólogo —, já que ir atrás dele, como faz Rubem Braga com a borboleta, não seria uma possibilidade. De onde vem, aonde vai?

Ontem ele apareceu um pouco mais tarde. Ao levantar às 5h50 e abrir a porta do banheiro, zonza de sono, estranhei o silêncio. Será que ele não vem hoje? Logo depois, já em outro canto da casa, ouvi ao longe o canto familiar reverberando.

Não sei se é um fenômeno do outono, essa estação tão plena de encantos, uma migração momentânea para a mata vizinha, o que o trouxe até aqui, o que faz com que retorne, todas as manhãs, e cante antes de alçar novos voos. O que sei é que aguardo a cantoria que emana daquele corpo tão frágil e, ao mesmo tempo, tão decidido, coberto por uma plumagem multicor.

E, ao pensar nele, nesse halo de ternura e liberdade que o acompanha, tem sido inevitável pensar em dois outros passarinhos. Em dois passarinhos crescidos que crio em casa já faz uns bons anos. Em dois passarinhos voando por aí, o peito inflado de tão sabidos que se acham, planando em voos ainda curtos, mas cada dia um pouquinho além, nesse ir e vir contínuo no qual se arriscam diariamente para então fazer o caminho de volta e pousar em casa. Até o próximo voo. “Passarim quis pousar, não deu, voou”, como na canção do Tom Jobim.

Clarisse Escorel

É escritora, advogada e especialista em Propriedade Intelectual e Direitos Autorais. Estreou na literatura em 2023 com o livro de crônicas Depois da chuva (Ouro sobre Azul). Vive no Rio de Janeiro (RJ).

Rascunho