Não deixe o samba morrer

Às 4:44 da madrugada, o calor desperta lembranças e dúvidas; mas, no compasso do samba, a vida pede fôlego e recomeço
Ilustração: Bruno Schier
20/02/2026

4:44. Olhei uma segunda vez a tela do celular. 4:44. Quatro da manhã é a hora do calor. Até aí, nenhuma surpresa. 4:44, uma ênfase desnecessária. “Quatro é borboleta”, diria meu marido, horas mais tarde, e, diante do meu olhar de reprovação, completaria impávido: “Tem que jogar na borboleta”.

Empurrei o lençol com os pés e respirei fundo, conformada, virando de barriga para cima. O calor vem e passa. Como o vento quente que antecede o temporal. De uns meses para cá, ele me percorre toda madrugada. Depois da visita noturna, não consigo mais dormir. Com os olhos ainda pesados, viro para o lado esquerdo, depois para o direito, sabendo que não voltarei a adormecer e que o dia chegará a qualquer momento. Até que o despertador toca às 5:50 e eu levanto, resignada com a minha nova condição.

Comento com algumas amigas, que sorriem satisfeitas. Ah, finalmente, ela também, devem pensar. “Então você entrou na menopausa.” Respondo dizendo que, “oficialmente”, ainda não, meus exames não mostram nenhuma alteração hormonal. “Como assim?” “Assim, ué”, respondo. “Mas você não tem nenhum outro sintoma?” E elas listam para mim o calvário pelo qual estão passando. “Bem”, digo ressabiada, “disso tudo aí que vocês contam, só o calor às quatro da manhã. Talvez um pouco esquecida. O cabelo mudou, sim, teve isso”. Penso mais um pouco e lembro da melancolia, a quem fui apresentada há cerca de dois anos, mas não acho que aquele seja o lugar adequado para desenvolver esse tipo de conversa. Estamos numa roda de samba, cada uma de nós com uma cerveja gelada na mão, acabamos de cantar juntas “Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar, o morro foi feito de samba, de samba pra gente sambar” e não há espaço para melancolia. Uma melancolia sorrateira, que surge sem ser convidada, me invade, me paralisa, luta comigo, insiste em me levar para debaixo da terra. De um dia para o outro, é como se eu tivesse trocado as lentes, que não uso, aliás, e visse tudo cinza. De um dia para o outro, arrasto correntes ao me movimentar, por menor que seja o meu deslocamento. Preciso ficar em casa, quieta. Por ora, foi o melhor remédio que encontrei. Mas não é o momento de contar isso para ninguém, porque chegou um baldinho com uma nova rodada de cervejas e me pego dançando e cantando alto “Chora, não vou ligar, não vou ligar, chegou a hora, vais me pagar, pode chorar, pode chorar. É… o teu castigo, brigou comigo, sem ter por quê, vou festejar, vou festejar o teu sofrer, o teu penar”. Tiramos fotos, analisamos as fotos, comentamos o sumiço do colágeno, sintoma comum a todas, e achamos graça.

Voltando para casa, lembro da seguinte cena vivida num dia em que arrastava correntes por aí. Chego ao exame de vista exigido para a renovação da carteira de motorista. A clínica fica num prédio comercial colado à Praça General Osório. Toda vez que vou a Ipanema, lembro de duas esquinas do bairro e da história que quero contar sobre cada uma delas. Afasto esse pensamento, que não combina com a esquina em que me encontro nem com a chatice daquela função numa tarde cinzenta.

Entro na sala indicada com o queixo pela recepcionista quase violenta. Me recebeu com tanto ódio que, por um instante, temi que fosse me dar um tapa. Um senhor idoso, bastante frágil, me aguarda do outro lado da mesa, na frente do aparelho que testará a minha visão. Entrego a ficha com as minhas informações pessoais, atirada na minha direção pela recepcionista minutos antes. Ele lê sem pressa. Olha sério para mim e pergunta: “Clarisse é o nome de alguma divindade grega?”. Fico sem ação. Se ele fosse três ou quatro décadas mais moço, teria certeza da cantada, mas não, não pode ser. Penso em responder: “Sim, a deusa do amor”, mas me controlo. “Até onde eu sei, não”, respondo, seca. Ele não se dá por vencido e conta que a primeira professora dele se chamava Clarisse e que ele nunca soube se o correto era escrever o nome dela com “c” ou com dois “s”. Explico que as duas formas estão corretas. Disposto a fazer o papo render, ele me pergunta qual a origem do meu nome. Considero duas alternativas. Contar que era o nome da minha bisavó seria a primeira opção, mais simples, para encerrar de uma vez aquela lenga-lenga. Escolho a segunda, para ver se o sujeito sossega. Respondo que as clarissas eram as seguidoras de Santa Clara e que Clarisse me parece ter essa origem. Ele se mostra surpreso. Me pede para encostar o rosto numa espécie de binóculo gigante e ler as microletras que aparecem lá longe, dentro do aparelho. Faço isso. Ele me dá os parabéns e diz que posso buscar a carteira dali a duas semanas no posto da Gávea. Na saída do consultório, abro o bloco de notas do celular. Abaixo de “Esquinas de Ipanema, história 1 e história 2. Nascimento filho e pipoca doce com a mãe”, digito: “Divindade grega” e dou uma quase gargalhada sozinha já dentro do elevador.

4:44. Desperto já condicionada pela visita inconveniente de todas as madrugadas. Noto que o vento quente não me acordou. Ou, talvez, eu tenha acordado antes da visita. Devo dizer que não senti falta dele. Ainda sonolenta, penso na sequência de três quatros, na borboleta, na lagarta, que talvez sinta calor antes da transformação. Não, que besteira. Sento na cama e passo a mão pela nuca para ter certeza. Não há sinal de suor. É, esta noite ele não veio. Levanto quase animada. Enquanto escovo os dentes, lavo o rosto, prendo o cabelo e espanto o sono, relembro as festas da minha adolescência. Do Carnaval. Na rua, no clube, na TV. Do dia em que desfilei com a Mangueira e foi tão bom e tão rápido que o desejo de atravessar a avenida mais uma vez nunca foi embora. Visto uma calça jeans e uma camiseta, meu figurino preferido desde sempre. Tomo um café, sento para escrever esta crônica decidida: não deixo o samba morrer.

Clarisse Escorel

É escritora, advogada e especialista em Propriedade Intelectual e Direitos Autorais. Estreou na literatura em 2023 com o livro de crônicas Depois da chuva (Ouro sobre Azul). Vive no Rio de Janeiro (RJ).

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