Lágrimas na chuva

Memória, cinema e melancolia se cruzam quando cenas de “Carruagens de fogo” e “Blade Runner” iluminam os mecanismos da lembrança
Cena de “Carruagens de fogo”, filme de 1981, dirigido por Hugh Hudson
21/08/2026

Tudo começa com uma cena. A cena de um filme que há semanas se infiltrou nos meus pensamentos e se impôs ao meu dia a dia, sem que eu entendesse bem por quê.

Não fosse isso suficiente — o fragmento de um filme surgir do nada e estabelecer uma espécie de repeat mental —, depois de alguns dias submetida à reincidência daquela imagem, me angustiou a ideia de que talvez ela pudesse não corresponder à cena do filme em questão.

Pois bem. A imagem que surgiu de repente e permeou meus pensamentos durante algumas semanas insistia em me mostrar um breve instante de Carruagens de fogo, filme de 1981, dirigido por Hugh Hudson. O estudante de Cambridge, Harold Abrahams, personagem interpretado pelo ator britânico Ben Cross, aparecia sentado na arquibancada de um antigo estádio parisiense, triste e cabisbaixo, no dia seguinte à conquista de uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1924, em Paris.

A imagem recorrente surgia límpida, todas as manhãs: Abrahams melancólico, vestindo uma roupa clara em contraste com os cabelos escuros. E eu me perguntava por que a minha memória insistia em me mostrar aquela cena. Antes de rever o filme para confirmar se ela de fato existia e correspondia à minha lembrança, resgatei a trilha sonora de Vangelis e a conversa que tive com minha mãe ao sair da sessão em que assisti a Carruagens de fogo pela primeira vez. Comentei que tinha gostado, mas não entendia a tristeza de Abrahams depois de vencer a prova de atletismo.

Não poderia cravar com certeza qual foi a explicação materna para a menina sentada no banco de trás do carro. Tenho impressão de ela ter discorrido sobre o perfil psicológico do personagem e sobre grandes expectativas das quais inevitavelmente decorrem frustrações. Algo um tanto abstrato, incompreensível para mim — àquela altura.

De todo modo, aos poucos, a imagem daquele rapaz passando diante dos meus olhos começou a fazer sentido. Andei assombrada por uma certa ressaca, meio para baixo, depois de emergir de uma felicidade profunda. Resolvi parte da charada, estabeleci a relação entre o meu estado de espírito e o do atleta do filme, mas continuei intrigada com o caminho que teria me levado a uma lembrança tão remota e que, no entanto, ilustrava à perfeição o que eu ainda não elaborara por completo.

Afinal, revejo Carruagens de fogo. Para meu espanto, fundi alguns trechos e criei uma cena toda minha. No filme, poucas horas antes da prova, Harold confidencia a um amigo a contradição que o atormenta. Com a voz embargada, revela ter tido, a vida toda, muito medo de perder e, no entanto, naquele momento, estar com medo de vencer. O que ocorrerá, minutos depois. Num clima mais melancólico do que festivo, Harold aparece num bar, bebendo com seu treinador.

Parada num engarrafamento, ouço um episódio do Nosso Podcast de Cinema sobre Blade Runner, dirigido por Ridley Scott e lançado em 1982. Retomo lembranças de um dos meus filmes preferidos. Da replicante Rachel, personagem de Sean Young, que acredita ser humana e ignora que sua memória foi implantada. Depois de anos, volto ao filme de ficção científica que se passa num futuro distante: 2019. Numa das sequências mais bonitas, no topo de um prédio da Los Angeles futurista e chuvosa imaginada por Ridley Scott, o replicante Roy, interpretado por Rutger Hauer, prestes a morrer, diz mais ou menos o seguinte para Rick Deckard, o caçador de androides interpretado por Harrison Ford: “I have seen things you people would not believe. (…) All those moments will be lost in time like tears in rain” (“Eu vi coisas que vocês não acreditariam. (…) Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva.”).

Fascinada pelos meandros e mecanismos da minha memória, torço para que ela não se perca no tempo.

Clarisse Escorel

É carioca, formada em Direito pela UERJ e mestre em Direito Internacional pela USP. Atuou na área de propriedade intelectual e direitos autorais e, desde 2019, vem se dedicando à literatura. Seu primeiro livro, Depois da chuva (crônicas), foi publicado em 2023 pela Ouro sobre Azul. Em 2024, publicou a plaquete Diamantes (Mapa Lab). Em 2026, estreou como romancista com O amor na sala escura (Bazar do Tempo). Desde março de 2025, é cronista do Rascunho.

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