Debí tirar más fotos

Um mergulho em catorze mil fotos revela a tentativa de guardar o tempo e de assegurar-se do que foi vivido com intensidade e amor
Ilustração: Eduardo Mussi
06/03/2026

Minha fototeca tem mais de catorze mil fotos. Isso mesmo, catorze mil. Eu também me espantei ao navegar por esse oceano de imagens com o objetivo de organizar, ao menos parte delas, em álbuns impressos.

Muito antes que a música — cujo título surrupiei para esta crônica — entrasse para minha playlist, já era adepta do “lema Bad Bunny”. Tinha a consciência de que um número considerável de fotos habitava meus arquivos. Ainda assim, catorze mil me surpreendeu.

Alarmada, refletindo sobre o excesso de fotografias, constatei que o nascimento do meu filho coincide com o surgimento do iPhone, em 2007, e que o nascimento da minha filha, com o surgimento do Instagram, em 2010, e que essas, digamos, coincidências, fizeram com que a minha maternidade fosse documentada com uma fartura de imagens inimaginável até outro dia.

Na casa dos meus pais havia cinco álbuns de fotografia. Um da infância e juventude do meu pai, outro da infância e juventude da minha mãe, o do casamento deles e dois com fotos pontuais da infância das filhas, no caso, eu e minha irmã. O que veio depois disso foi obra minha. Fotografias, na sua maioria, tiradas por mim com uma máquina xereta — acho que era esse o nome de um dos meus sonhos de consumo da época —, arquivadas em álbuns que as lojas de revelação forneciam como brinde. Capa de papelão estampada com alguma propaganda ou imagem de gosto duvidoso, pequenos envelopes de acetato onde inseríamos as fotografias até que a passagem do tempo as desbotasse ou grudasse parte delas no plástico.

Mais adiante, ganhei uma câmera digital; as fotos eram transferidas para o computador e, raras vezes, impressas em papel. Perdi algumas preciosas ao trocar de notebook na era pré-nuvem. E, então, surge o iPhone com uma câmera acoplada e o ato de fotografar torna-se, ao menos para mim, uma compulsão.

Hoje, já compreendi e aceitei: tenho mania com foto desde sempre. Tirar e rever. Já fui pior, melhorei com a idade, mas tenho recaídas. Revia exaustivamente os tais cinco álbuns da casa dos meus pais, assim como todos os que montei graças às lojas Kodak e Fuji. Registrava aniversários, viagens escolares, férias e encontros. Montava painéis fotográficos na parede do quarto adolescente como se construísse um mosaico de amigas, amores e alegria, siderada pela magia de capturar o instante, poder retornar a ele e, em alguma medida, revivê-lo. Iludida pela sensação de ter, ao meu dispor, uma espécie de máquina do tempo.

Ao me tornar mãe, vejo agora, o impulso de documentar o que vivia com aqueles dois seres fabricados por mim e tão absolutamente desejados foi multiplicado ao infinito. Eu diria mesmo que saiu completamente do controle, como acontece com as paixões e, por isso mesmo, já me perdoei pelas catorze mil fotos.

Volto à biblioteca que ambiciono organizar. À memória visual do nosso quarteto, a esse legado. À nossa iconografia. Pais e filhos retratados ao longo do tempo. Pais jovens, maduros, com a pele esticada pelo colágeno esfuziante da mocidade, povoados por rugas e fios brancos. Crianças banguelas, bebês sem cabelo, jovens com cabelos que mudam de cor e corte. Recém-nascidos com o canto da boca molhado de leite, crianças sorridentes, adolescentes emburrados.

Flano por essa coleção de imagens, indo e vindo no tempo, saudosa deles pequenos, agarrados na gente. Ao ser lembrada de que aqueles instantes existiram, foram de fato vividos e se transformaram em passado, sinto uma mistura de alegria e dor.

Filhos adolescentes se desgarram da gente como se arrancassem a nossa pele enquanto trocam a deles. É provável que do nosso acervo iconográfico não conste essa parte da história, mas será sempre possível retornar a ele, consultá-lo para, mais do que relembrar e reviver, assegurar-se do que foi vivido. E quanta vida cabe em catorze mil fotos.

Clarisse Escorel

É escritora, advogada e especialista em Propriedade Intelectual e Direitos Autorais. Estreou na literatura em 2023 com o livro de crônicas Depois da chuva (Ouro sobre Azul). Vive no Rio de Janeiro (RJ).

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