De repente, num domingo

Entre o desalento provocado pelo primeiro turno das eleições e a mobilização das ruas, a esperança ressurge como resposta ao medo
Ilustração: Eduardo Mussi
16/10/2026

Algo estranho aconteceu naquele domingo. Cheguei em casa em torno das 16h30 e fui sugada por uma sonolência que me jogou na cama onde adormeci como se tivesse sido dopada.

A menos que esteja chumbada de gripe, nunca durmo de dia. Naquele domingo, no entanto, dormi pesado até as 19h30, quando meu marido me acordou preocupado, perguntando se eu estava bem. Teria sido a cerveja antes do almoço? O calor? Efeito da vacina contra herpes-zóster quarenta e oito horas antes? Não tenho a resposta.

O fato é que apaguei, apreensiva com a apuração eleitoral, e fui acordada por um mensageiro do apocalipse que me deu uma ideia bastante precisa do que estava acontecendo para aqueles que permaneciam acordados. Sem conseguir me levantar, o corpo pesado, acessei a transmissão do Foro de Teresina pelo celular e percebi, pelo clima de velório, para onde se encaminhava o resultado do primeiro turno das eleições daquele domingo, 4 de outubro de 2026.

Virei para o lado e dormi até o dia seguinte. Acordei destruída na manhã de segunda-feira. Tomada por uma tristeza que há muito não sentia. Paralisada diante de um cenário pintado com as cores do horror.

Logo cedo, troquei mensagens com meus pais. Meu pai usou o termo “tragédia”, minha mãe disse já estar arregaçando as mangas. Um pouco mais tarde apareceram mensagens de tias e amigas. A palavra esperança rodopiou diante dos meus olhos baixos sem produzir nenhum efeito. Me arrastei de um lado para o outro. Na manhã de terça-feira, consegui achar graça no relato da amiga que tinha ido à terapia, sedenta de colo, doida para desabafar, mas precisou consolar a terapeuta, mais arrasada que ela.

Diante dos pavorosos resultados do primeiro turno da eleição ocorrida no dia 4 de outubro último, senti saudade de um tempo, não muito distante, em que os ânimos se acirravam em torno do PT e do PSDB. De um tempo em que o debate se dava entre direita e esquerda e o uso do termo “direita”, para se referir a determinado grupo político, ainda fazia sentido. Havia discordâncias acentuadas entre correntes mais progressistas e correntes mais conservadoras, pontos de vista intransponíveis, mas, acima de tudo, havia a possibilidade de diálogo.

Sinto saudade de uma vida em que não conhecíamos ninguém com o sobrenome Bolsonaro.

O que permitiu a ascensão do bolsonarismo no Brasil? Como a gente acorda desse pesadelo? Como se enfrenta uma coisa dessas? Ando povoada por perguntas, carente de respostas, perseguida por uma sonolência fora de hora que me oferece a possibilidade covarde de fuga de uma realidade dura demais. Em mensagens e inícios de conversas tenho evitado a pergunta padrão: “Tudo bem?” Nesse caso, já conhecemos a resposta.

Nada, nem ninguém, nenhum erro do Lula ou falha dos seus governos me fará entender como cerca de 56 milhões de brasileiros possam votar em um candidato que, numa lista acanhada, dizimará a Amazônia e as políticas sociais; será teleguiado pelo governo dos Estados Unidos e pelo pai; tramou assassinatos e um golpe de Estado; anistiará os golpistas de 8 de janeiro de 2023; legalizará o porte de armas; exterminará a cultura e a educação; é a favor da tortura; contra a democracia; tem ligação estreita com a milícia e patrimônio incompatível com seu salário.

Essa crônica-obituário teria inicialmente o título de Domingo sangrento, uma referência ao massacre ocorrido na Irlanda no início dos anos setenta. Foi o que me ocorreu ao começar a escrever, logo depois do primeiro turno, já que traduzia o meu estado de espírito e o clima reinante. Ainda assim, passados alguns dias, decidi ter esperança. Sou dessas. Conheci a deputada federal eleita Ana Elisa — a personificação do futuro que eu desejo para o Brasil. No domingo, 11 de outubro, tive a sorte de ir à Paulista, repleta e coberta de vermelho. Na segunda-feira, 12 de outubro, foi a vez da orla de Copacabana. A onda vermelha vem tomando conta de várias capitais. Era preciso mudar o rumo dessa prosa.

De repente, num domingo é a tradução do título do último filme do Truffaut, Vivement dimanche! (numa tradução literal, “Tomara que o domingo chegue logo”). Não vamos perder a esperança no dia 25 de outubro de 2026. De repente, num domingo, a gente faz um país.

Clarisse Escorel

É carioca, formada em Direito pela UERJ e mestre em Direito Internacional pela USP. Atuou na área de propriedade intelectual e direitos autorais e, desde 2019, vem se dedicando à literatura. Seu primeiro livro, Depois da chuva (crônicas), foi publicado em 2023 pela Ouro sobre Azul. Em 2024, publicou a plaquete Diamantes (Mapa Lab). Em 2026, estreou como romancista com O amor na sala escura (Bazar do Tempo). Desde março de 2025, é cronista do Rascunho.

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