Juro que tentei. Argumentei comigo mesma: já se falou demais sobre o episódio. No fundo, uma bobagem alçada à categoria dos assuntos falsamente relevantes. Um não assunto. Chega. Deixa isso para lá. Daí, caí na besteira de assistir à íntegra da entrevista concedida por Regina e Gabriela Duarte à Folha e acabei vencida.
Em comemoração às seis décadas de carreira de Regina, a dupla acaba de estrear em São Paulo a peça A filha da, de Carlos Eduardo Silva.
Imagino que a assessoria de imprensa contratada pelas atrizes tenha enviado um release e que a Folha tenha se interessado por essa pauta. Suponho, ainda, que a assessoria e o jornalista Matheus Rocha tenham acertado detalhes tais como local, dia e hora da entrevista; se haveria sessão de fotos e gravação de vídeo; qual o número aproximado de perguntas e a duração da conversa.
Considerando que estamos a dois meses de uma eleição presidencial em que o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro é candidato; considerando a polêmica participação de Regina Duarte como secretária de Cultura desse governo; considerando a desde sempre declarada posição política de Regina — quem não lembra dela dizendo “eu estou com medo” em 2002? —, como é que alguém poderia imaginar que um jornalista não formularia perguntas sobre política? Como explicar que ninguém da produção tenha se preocupado em acertar os termos em que a entrevista se daria? Esqueceram de combinar com os russos? Pelo visto, sim.
Quando a entrevista começa, o constrangimento já está instalado. Para quem assiste, o desconforto e a tensão são palpáveis, estampados no olhar e nos gestos das duas. Mexem no cabelo, roem unhas, não estão nada à vontade. Para ilustrar o quadro, Gabriela usa uma correntinha com um pingente, em formato de olho, que não para quieto no pescoço. Vira e desvira do avesso à medida que ela se movimenta, dando ao telespectador a impressão de um abrir, fechar e revirar de olhos ininterrupto.
A certa altura, Matheus Rocha pergunta sobre a importância da personagem Malu Mulher na vida de Regina e se as atrizes se consideram feministas. Regina afirma que é “machista para caramba”. Diz que aprendeu com a personagem, mas que tem hora que acha que o homem tem que botar o pé na porta. Gabriela complementa, afirmando que não devemos “eliminar o homem” e nos ensina que o feminismo se trata de uma “luta conjunta”. Ambas não gostam da “taxação” de feminista. Incrédula, me pergunto o que será que mãe e filha entendem por feminismo.
Curiosidade mórbida, puro masoquismo, não sei bem por quê, mas continuo a assistir à entrevista. Matheus se dirige à Regina, indagando se o fato de ela ter assumido uma função pública no governo Bolsonaro implicou em um custo pessoal. “A gente não vai falar sobre isso”, diz Gabriela. Que vexame, penso eu. Regina desobedece. Incorpora a viúva Porcina e responde dizendo que participar do governo de Jair Bolsonaro “não teve custo pessoal nenhum”; que entrou, ficou setenta e quatro dias, saiu e “seguiu com a sua vida magnificamente bem”.
Depois desse clímax, a entrevista segue num astral de fim de domingo. O jornalista, de quem só ouvimos a voz, conduz bem a conversa, mantendo-se tranquilo e educado. Impressiona a sequência de embates entre mãe e filha. Ao ser perguntada sobre o que pensa do politicamente correto, Regina responde que não sabe falar sobre isso. O jornalista insiste e ela nos diz que o politicamente correto não é importante, que se trata de uma “expressão exótica”. Gabriela, que minutos antes revelara ter sido cobrada por ações da mãe, olha para o lado pedindo socorro, como em quase todas as vezes que Regina se manifesta.
“Somos todos corpos ideológicos”, afirma Gabriela no início da entrevista. Vencida pelo meu corpo ideológico, tomado por uma mistura de vergonha alheia, incredulidade e indignação, acabei escrevendo esta crônica. “Somos todos corpos ideológicos que não correspondem, necessariamente, ao que nossos pais pensam”, diz ela. Fica evidente que as divergências entre mãe e filha são inúmeras, imensas e vão além da política. Talvez isso explique o fato de que o reencontro, depois de vinte anos sem trabalharem juntas, se dê por meio da encenação de uma comédia nonsense. Não deve ser simples ser “A filha da”.