Há duas esquinas no Rio que mexem comigo. Não passo incólume por elas. Semana passada, esperando o sinal abrir num desses entroncamentos, me pus a pensar sobre isso, mais precisamente sobre o tempo para o qual essas esquinas me transportam.
Toda vez que passo pela esquina da Afrânio de Melo Franco com Ataulfo de Paiva, tenho uma espécie de déjà vu, a sensação de estar me dirigindo à casa da minha avó, que, durante tantos anos, morou logo ali, alguns prédios adiante. Esse teletransporte involuntário para um passado que se faz tão presente dura alguns segundos. Logo me dou conta de que não posso estar me dirigindo à casa dela, de que ela não está mais lá, no sexto andar, me esperando para um almoço, um café com bolo ou um passeio. Há nove anos, minha avó não está mais lá, e, no entanto, ao passar por aquela esquina, vivo a ilusão momentânea de proximidade com algo que deixou de existir, antes de ser confrontada com um chamado à realidade me alertando que não, não estou indo para casa dela, alguns prédios adiante.
Em Ipanema acontece algo parecido. Na esquina da Joana Angélica com Visconde de Pirajá, na diagonal da Padaria Ipanema, ali na Praça Nossa Senhora da Paz, fui apresentada à pipoca doce pela minha mãe. Uma combinação e tanto essa, mãe e pipoca doce. Um amálgama perfeito que dava a ela um enorme prestígio aos olhos das filhas, entre outras razões, porque, ao contrário do meu pai, ela não era exatamente liberal no que dizia respeito ao consumo de “alimentos não saudáveis”. Diante de uma pipoca doce, ela perdia a cabeça. E basta eu passar por aquela esquina para sentir o gosto daquela pipoca caramelizada e crocante dissolvendo na boca, tantas vezes repetida e comprada por aquela mãe da minha infância num pipoqueiro que não está mais lá.
Outro dia, depois de cruzar a pé a esquina onde durante tantos anos me empanturrei de pipoca doce, desci de carro a Joana Angélica até a Epitácio Pessoa e peguei o retorno à esquerda, logo depois do Bar Lagoa, rumo ao Jardim Botânico. A visão do morro Dois Irmãos e da Pedra da Gávea quase sobrepostos, emoldurados por um céu alaranjado, me fez reduzir a velocidade. Geograficamente distantes cerca de dez quilômetros, vistos daquele ângulo, dão a falsa impressão de estarem próximos um do outro.
A memória aflorada por essas duas esquinas cariocas me impressiona pela recorrência, mas não só. Me impressiona pela intensidade com que trechos de um passado longínquo retornam e permanecem, invadindo presente e futuro, o que me leva a um lugar-comum inevitável que, em alguma medida, me apazigua ao me assegurar que as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão. Como no trecho da bela crônica Falta um tempo verbal ao português, tempo pretérito presente futuro, do Julián Fuks, publicada no UOL, em 5 de setembro:
(…) Falta ao português, como talvez falte a todas as línguas, um tempo verbal dos mais significativos. Chamaria eu de tempo da permanência (…). Um tempo que se abrisse no passado e ali durasse, sim, como o pretérito imperfeito, mas então não se encerrasse em nenhum momento preciso ou impreciso, em vez disso ressurgindo no presente e até insinuando uma promessa de futuro. Tempo pretérito presente futuro, em síntese. Algo entre o ter sido e o ainda ser, com certa suspeita de que se será eternamente.