No segundo semestre de 2023, durante um feriado em São Paulo, fui passear na livraria Megafauna. Saí de lá carregando alguns livros, entre eles, Lutas e metamorfoses de uma mulher e Quem matou meu pai, ambos de Édouard Louis. De volta ao hotel, minha filha não se sentiu bem, e cancelamos a saída para jantar. Passei a noite lendo Édouard Louis e terminei nocauteada.
Durante a Flip de 2024, cerca de um ano depois, estive num auditório repleto para assistir à mesa 18, Anatomia do futuro, mediada pelo Paulo Roberto Pires. Édouard Louis entrou no palco nervoso, frágil como o menino retratado em seus livros. Com o celular apoiado na palma da mão direita, leu o trecho de um de seus livros, marcando, como um maestro, o ritmo com a mão esquerda. Nas pausas, encarava a plateia com a segurança de um veterano. Terminada a mesa, lá estava eu ainda mais comovida com a fragilidade daquele rapaz, ainda mais impactada com a violência extrema do que ele nos narra, intrigada com a oscilação entre força e fragilidade demonstradas por ele ao longo daquela conversa. Li Monique se liberta pouco tempo depois e, de novo, gostei bastante, confirmando o interesse que seus livros me despertavam.
Eis que, em 1º de março último, a Folha de S. Paulo publica uma entrevista com Édouard Louis na qual ele afirma o seguinte: “Ernaux é uma grande escritora que reinventou a literatura, enquanto Ferrante está fazendo romance para adolescentes”. Pausa dramática.
Concordo que Ernaux é uma grande escritora. Discordo que tenha reinventado a literatura, mas não é dessa afirmação que desejo tratar. E, sim, do trecho: “Ferrante está fazendo romance para adolescentes”. O que me veio de imediato: esse cara não leu Elena Ferrante. O que ela escreve está longe de ser algo voltado ao público adolescente. Em seguida, o que me ocorreu foi: mas e se ela estivesse escrevendo romance para adolescentes? Isso seria um demérito?
Louis continua e entorna o caldo: “Acredito que os livros de Elena Ferrante sejam realmente ruins, mas literatura ruim tem o direito de existir. Livros ruins não impedem a existência de livros bons”. Não gostar de Ferrante me parece estranho, talvez mesmo inexplicável, mas isso não vem ao caso. O que chama a atenção é a arrogância e a grosseria do jovem autor francês, que, sem apresentar sequer um argumento que sustente a sua “crítica” de pé, desqualifica a colega italiana, autora consagrada internacionalmente, e enaltece a autora francesa que, como ele, escreve sobre a própria vida. “É que narciso acha feio o que não é espelho.” Seria essa a explicação?
“Mas, na verdade, o mundo literário tem os mesmos mecanismos de violência, exclusão, dominação e imperialismo que você encontra na economia. É exatamente a mesma coisa.” É, Édouard, aqui sou obrigada a concordar com você. Acrescentaria, porém, que a sua fala está contaminada por esse mesmo mecanismo de exclusão. Você se queixa de ataques sofridos, mas ataca e exclui uma autora mulher, seguindo a mesma cartilha. “Não julgo as pessoas com base nas tribos às quais elas parecem pertencer, por achar que isso é um dos efeitos do capitalismo.” Ué, o seu comentário sobre a Ferrante não seria um julgamento com base na tribo à qual você acredita que ela pertence?
Elena Ferrante produz má literatura, diz ele. Puxo o ar pelo nariz e solto pela boca. Pondero que talvez, quem sabe, o autor por quem eu havia me afeiçoado, não tenha dito exatamente isso. Pode ter havido um momento lost in translation durante a entrevista. Quem sabe não entendeu a pergunta formulada pelo jornalista, quem sabe o jornalista não entendeu exatamente o que ele respondeu, tirou do contexto. Mas não. Nenhuma das possibilidades de redenção aventadas me serviu de consolo.
Édouard não gosta de Ferrante. Ele tem esse direito. Daí a dizer essa quantidade de bobagens sobre a literatura de uma colega vai uma longa e tenebrosa distância. Sofreria ele do mesmo mal que Timothée Chalamet? Seria ele apenas uma celebridade mal assessorada? Um premeditado criador de polêmicas? Um egocêntrico desvairado e contraditório? Não encontro explicação razoável para que um autor desqualifique publicamente uma colega dessa maneira.
Mudar: método, um de seus livros publicado no Brasil, estava, até outro dia, no início da fila das próximas leituras. Guardei-o na estante e peguei Dias de abandono, com Elena Ferrante brilhando soberana a cada frase.
Termino com as palavras de Édouard Louis: “É sempre estranho quando as pessoas dão lições sobre o que é literatura. Ao contrário de nações autoritárias, a literatura devia ser um país sem fronteira. Na prática, porém, as pessoas criam uma polícia literária para distribuir multas e punições para quem desrespeita regras ou ultrapassa fronteiras. É exatamente como fazem os Estados autoritários”.