A vida pela frente

Um olhar sensível sobre começos, tempo e permanência, costurado entre gerações que desejam, cada uma à sua maneira, que a vida nunca deixe de se iniciar
Ilustração: Eduardo Mussi
06/02/2026

Às vezes me bate um medo de não saber como começar. De que forma introduzir a ideia, capturar o interesse do leitor, desenvolver o texto lapidando palavra a palavra, frase a frase, parágrafo a parágrafo, até conseguir chegar à última cena, se tudo der certo, arrebatadora. Espanto o medo começando. Costuma dar certo.

Começos dão frio na barriga, geram a excitação inerente à expectativa, carregam o fascínio da descoberta, têm um sabor único que não se repete. Marcam dia, hora e temperatura do instante em que tudo começou. Começos são estreias, primeiros dias de aula, saltos acrobáticos no ar, mergulhos na água gelada. Ao começar, driblamos a passagem do tempo, lutamos contra ela, tornamos o tempo elástico. Se algo está começando, estamos no início: de uma nova estação, de um mês que se inicia, do ano que começa. Temos muito tempo pela frente. Começar um livro, um filme, um novo amor. Começar é estabelecer uma conversa com o futuro.

Meu pai tem oitenta anos. Não saberia dizer se os oitenta são os novos sessenta, como dizem por aí. O que posso afirmar é que não canso de me surpreender com ele. Talvez seja eu a equivocada nessa história por me espantar com a vitalidade contagiante de alguém dessa idade. O fato é que me surpreendo e me comovo.

No início de janeiro, ele voou para o interior do Nordeste com uma pequena equipe. Passou dez dias por lá, filmando. Recebi duas ou três fotos por WhatsApp durante esse período. Duas me impressionaram em especial. Nelas, ele aparece de boné e óculos escuros, sobre uma paisagem de tirar o fôlego. Mira o horizonte e sorri, começando um novo projeto.

Tenho uma filha de quinze anos. Quase dezesseis. Passou o ano-novo em Búzios, cercada de amigos da mesma idade. Chegou em casa no dia 2 de janeiro exausta, saudosa e felicíssima. Tarde da noite, desconsolada, chorava sentida “porque tudo está passando muito rápido”. Os dias em Búzios com os amigos, a vida escolar que ela não quer que termine. Chorava sentida e me dizia não querer que as férias terminem, que o ano escolar comece, que ela, daqui a dois anos, se forme e entre para a universidade. E chorava sofrida e repetia que “tudo está passando muito rápido”. Condoída, me perguntava o que teria o condão de consolá-la.

Qual seria a palavra mágica e apaziguadora? Como nenhuma ideia brilhante me ocorreu, tentei confortá-la dizendo que a vida passa rápido mesmo e, por isso, é importante aprender cedo a viver o presente ao máximo, com ardor, mas que, aos quinze anos, o tempo que ela tem pela frente é infinito, a juventude é só o início, a vida dela está só começando. E, então, ainda mais chorosa, ela me responde, em meio aos soluços: “Mas eu quero que seja sempre assim, que a vida esteja sempre só começando”.

Segurei a mão dela e abracei apertado aquela menina que de alguma forma era eu soluçando abraçada à minha mãe, desejando que o tempo parasse, passasse mais devagar, porque, assim como ela, carrego comigo esse desejo secreto e incontrolável que ela enfim traduziu com precisão e toda a intensidade de uma adolescente, de que a vida possa estar, sempre, de alguma maneira, só começando.

Clarisse Escorel

É escritora, advogada e especialista em Propriedade Intelectual e Direitos Autorais. Estreou na literatura em 2023 com o livro de crônicas Depois da chuva (Ouro sobre Azul). Vive no Rio de Janeiro (RJ).

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