Dois mil e vinte e seis. Quando eu era criança, falava de algo fantasioso, no futuro longínquo: ficção científica, naves espaciais e carros voadores, como “lá pro ano de dois mil e vinte”. Nasci em 71, você precisa dar um desconto. Chegamos à distopia, sem dúvida. Ainda estou aguardando as curas para tudo em um único comprimido, jetpacks para todos e robôs que lavem louça. Até agora, ganhamos um burro autômato chamado gpt, que nos dá mais tempo para lavar louça. Perdemos. Perdemos feio. Perdemos rude.
Todas as vezes em que vi o teto de um hospital passar, pensei em cenários pós-apocalípticos e/ou distopias. Para qualquer coisinha, besta ou não, te levam em uma maca. Não, não posso ir andando, é protocolo. Deve ser o de Haia, e estamos prontos para voar. Dirigem a cama sobre rodas com a destreza do tédio, do salário baixo, do cansaço e das horas longas. A lateral bate, sempre bate, na entrada do elevador. O teto, uma sequência de lâmpadas de gosto duvidoso. Não teve uma única vez em que não tenha me sentido em Os doze macacos. Falam à sua volta como se você já fosse um cadáver. Um cadáver adiado, diria um Pessoa otimista. No que depender de mim, adiarei o máximo que eu puder.
Na Paulista, uma mulher grita com o Banco Central. Não, não com a ideia de. Ou com a instituição de. Ou com a política de. Grita com o prédio. Ela faz isso todo domingo. Logo do seu lado, poucos metros à esquerda, um grupo faz passinhos de dança para um celular. Atravessando a rua, um grupo de mórmons tenta me convencer de algo que não escuto.
Um monte de gente mal paga, vestida de palhaço, tenta parar pessoas aleatórias na rua. Me recuso a falar clown. Palhaço. Fazem piadinhas idiotas, gracejos babacas e se colocam na sua frente, impedindo a passagem. Querem “só um minutinho” para, obviamente, pedir doação para alguma causa nobre, crianças, baleias, sei lá. A vontade que eu tenho de não parar, continuar andando, chutar a canela de um e falar “desculpinha”, você não faz ideia. Desvio, apenas, educadamente. Não gosto nem de andar de mãos dadas com o crush, que dirá alguém me impedindo de ir e vir para onde eu quiser. Esse povo perdeu o amor às canelas. Sem falar que odeio palhaço.
Na frente do Trianon, tem um monte de barraquinha de comida. Me recuso a falar food truck. Barraquinha. Em uma delas, compro um coco gelado que divido com Nina Simone. Infelizmente, como ela ainda não aprendeu a beber com canudo, agora minha perna está toda molhada com água de coco.
A avenida está decorada para a virada do ano. Vai ter show de um monte de gente que não sei quem é. Reconheci apenas os nomes Belo e Padre Marcelo Rossi. De uma certa maneira, achei coerente. Poético, até. Distopia, estou te dizendo.
Fingi que não vi um ex-caso-algo-coisa. Achei ótimo porque nem precisei mudar de calçada para evitá-lo. Já estava lá longe, do outro lado da rua. Nina Simone comprou briga com um golden. Quase me derruba. Ela não gosta de almofadinhas. Eu também não, mas tenho, ainda, um pouco de vergonha de latir quando encontro um.
Pelas minhas contas, já se passaram seis anos de quando eu achava razoável estarmos vivendo em Star Trek. Dia 15 de janeiro, agora, a franquia completa 60 anos. Sessenta anos, gente. Já deu tempo de sobra de a ciência alcançar e realizar essa óbvia necessidade humana. Tem até curso de Klingon no Duolingo. Estamos prontos, que venha o teletransporte, nuqneh.