Vestido modelo banheiro

No lançamento de um livro, a cronista observa pai e filha e reflete sobre privilégio, ausência, masculinidade e os destinos afetivos da vida adulta
Detalhe da capa do livro de contos “Janaína queria morrer”
26/02/2026

Lançamento de livro de amigo. Na mesa de autógrafos, ele e a filha, que fez a capa. Estão lindas, a capa e a filha. A menina e o pai autografando os livros. É muito impressionante para mim o quão pouca gente entende que filho querer conviver com pai/mãe é um privilégio conquistado, não um direito natural. E não é fácil, nada na vida é. Criar filho é difícil. Vale a pena, mas é difícil.

E, sabe, quando a criança não vai bem, na maioria das vezes é culpa da criação. Sim, sou dessas.

A menina capista tem uma doçura no olhar. Quando fiz um comentário sobre a técnica de pintura usada na capa, ela brilhou. Artistas são assim mesmo. A gente se empolga quando o vínculo se estabelece, quando o outro vê, vê de verdade, quando o outro entende. É tudo tão difícil.

É difícil criar filho, é difícil ser artista, é difícil qualquer profissão honesta, é difícil existir.

“O maior favor que você pode fazer a um filho é ter uma vida própria interessante, para que ele não precise carregar o fardo de ser a sua única razão de viver”, já disse Contardo Calligaris, no livro Cartas e um jovem terapeuta. Ele tem razão.

Tem uns dias, por outro lado, que filho é a única coisa que nos impede de derreter. Que nos dá ânimo para levantar e (tentar) viver.

Olho para a enorme fila (o lançamento foi um sucesso, para felicidade do editor!) e só consigo prestar atenção na menina artista, distraída em seus pensamentos, ao lado do pai, que dava atenção a tudo e todos, que sabia o nome de todo mundo, que sorria e tirava fotos. E a menina lá, meio que olhando pro teto. Ela e eu gostamos muito do teto. De qualquer teto. Quem estou querendo enganar? Nem precisa ter teto.

Essa menina sou eu, muitos e muitos anos atrás. Em um evento profissional qualquer. Lançamento. Vernissage. Meu ou de outrem. Não faz a menor diferença. Sou eu. E ela. Somos nós olhando para um teto imaginado.

Não é que o ambiente ou as pessoas não nos interessem. Pelo contrário. É que tudo nos interessa. E não damos conta da quantidade de informação; então, a gente se fecha. Olha pro teto. É um tempo necessário de processamento. Somos um supercomputador rodando na bateria de um carrinho de pilha.

O livro, Janaína queria morrer (Patuá, 2026), é de contos. O que dá título ao livro é curto, tem uma página apenas. Fala, de certa maneira, desse privilégio. Não ter com quem dividir segredos é o grande luto da perda de uma mãe ou de um pai. E essa perda não precisa ser por morte. Pode ser apenas por ausência. É o tal do privilégio conquistado. É uma conquista, sempre.

O livro todo tem um tom quase de humor ao olhar para várias perdas e mortes. A capa é perfeita. Essa menina que, aos meus olhos, tem uns 4 anos de idade, conseguiu capturar o clima melancólico e crítico do pai.

E, então, penso nos pais à minha volta. Uns ótimos, uns péssimos, pouca coisa no meio. Nunca conheci uma mãe que tivesse abandonado filho. Claro, leio jornal, sei que existe. É só bem mais raro. O que faz com que certos homens acreditem que têm direito ao afeto, não importa o que façam?

Ando tão cansada da masculinidade da minha geração que nem te conto. As gerações mais novas estão melhores. Muito melhores. A minha é um horror.

Como me relacionar com alguém mais velho começa a envolver uma mesa branca e eu acho homem novo um horror, resta-me, realmente, apenas gatos. Só falta comprar um sombreiro, um vestido que imita cortina de banheiro e assustar crianças na rua. Serei a velha louca dos gatos. Tenho dois, já comecei.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho