Ando que não aguento esse momento autoajuda policiada que a literatura brasileira contemporânea vive.
Outro dia li “Não escreva pensando se vão gostar. Nada importa, vamos todos morrer, escreva o que te der vontade e pronto.” À primeira vista parece um bom conselho. Acredito mesmo que foi sincero e com a melhor intenção do planeta. E mais, acho ainda que para muita gente foi bacana. Eu? Eu leio isso a contrapelo, como diz meu pai. Como assim não escreva pensando se vão gostar? Não escrevo como monólogo. Não tenho vontade de impor minha visão de mundo a ninguém, muito menos ao meu leitor. Quero que goste. O meu desejo é que gostem. Nosso desejo muitas vezes é frustrado, já nos ensinou Freud, mas ainda assim é um desejo existente, verdadeiro. Continuando, se vamos todos morrer (vamos) e nada importa (verdade), escrever o que me dá vontade é criar pontes, é abrir diálogos. E, para isso, o outro precisa gostar.
Um amigo enfrentou a horda dos leitores preocupados por dar like em um post de um autor “maldito”. Esses cidadãos de bem do mundinho literário que se acham no direito de julgar metonimicamente (parte pelo todo) relações complexas e textos de qualidade questionável.
Entendo cada vez menos o mundo à minha volta.
Sobre o assunto, lato sensu, Rodrigo Casarin falou em “A polícia da leitura ronda por aí”. Não tenho prazer na leitura de alguns nomes de quem Casarin gosta, mas o ponto é justamente que tanto faz. Ele pode gostar de quem diabos ele quiser. Eu posso continuar não gostando da maior parte do que leio, como deus quis. Tudo bem, gente. A leitura é um momento individual, íntimo, particular. O lance público e coletivo de que falam se chama publicidade, não literatura.
Vai dando um desânimo, sabe.
Sim, eu sei que estou metendo a mão em vespeiro. Não é a primeira vez. Não será a última.
Para exemplificar como não tenho medo de vespas, eu achei um absurdo o Bob Dylan ganhar um Nobel em Literatura e a Fernanda Montenegro virar imortal da ABL. Dois gênios em seus campos. Pena que esses campos não são a literatura.
Lembrei da defesa de mestrado do meu pai, no IME, sobre machine learning em 1800 e bolinha. O cidadão da banca abre o texto e diz algo como “na página 128, parágrafo 4, há uma vírgula excessiva”. De onde eu tiro duas conclusões. Uma, que se é isso que o sujeito tem para criticar, está ótimo. E duas, que o cidadão em questão é uma anta, já que o mestrado do meu pai foi revisado pela minha mãe e aquela vírgula estava correta. E nem dá pra chamar o milico da banca de esquerdomacho. Tenho certeza de que não era de esquerda. A parte sobre gênero simplesmente não me interessa.
Falo aqui do esquerdomacho como um espírito, como uma entidade mítica, não uma questão de filiação política exatamente.
O mercado literário está dominado pelos esquerdomachos. Sejam eles de esquerda ou não. Sejam eles machos ou não.
E eu acho isso uma pena.