Um bom livro nunca te abandona

Livros, trilhas e lembranças familiares revelam como a leitura acompanha, consola e resiste melhor do que qualquer aventura ao ar livre
Ilustração: Eduardo Mussi
29/01/2026

Raramente eu faço resoluções de virada de ano. Para falar a verdade, raramente estou sequer acordada na virada do ano. De 2025 para 2026 não foi diferente quanto ao horário de dormir, mas eu levei um “sacode” da cardiologista e decidi que este será o ano em que vou sair do sedentarismo.

O problema é que sentar e ler um livro é muito, mas muito, mais agradável e interessante do que fazer qualquer tipo de exercício físico. Ou, pelo menos, é o que eu sempre achei. Até começar a fazer trilha. Retomar trilha, na realidade. Fiz muitas na adolescência. Sim, eu sei que ainda dava para ver os pterodátilos no céu nessa época. Vistos da montanha, inclusive, o voo deles é lindo.

Trilha é um exercício que tenho até relativa vontade de fazer. Levo um livro, claro. Só por via das dúvidas. Vai que chove. Vai que eu me perco. Vai que uma amiga me abandona. Um bom livro nunca te abandona.

Na trilha, um adulto, de seus 35 anos mais ou menos, comenta, animadíssimo, que era a primeira vez que via um esquilo. Ele achava que eram bem maiores. Não vi o bicho. Pelo que sei, poderia até ser um guaxinim. Estava me concentrando e usando toda minha energia para evitar conhecer o homem do Samu. Só achei engraçado alguém daquela idade nunca ter visto um esquilo.

Na ida, fiquei sem fôlego. Na volta, a lombar doeu. Subida na ida, descida na volta. Estava quase chamando um Uber. Não é surpresa a lombar doer. Eu me sento na frente do computador igual a um trem descarrilhado. A minha postura, que se parece bastante com um acidente de carreta na Dutra, explica 70%. A mochila, desnecessariamente pesada e mal escolhida, os outros 30%.

Minha mãe era uma andarilha. Se fosse deixada sem reclamações familiares (minhas), facilmente andaria até o Uruguai. Ela, ao contrário de mim, gostava de acampar. Quando eu era criança, acampávamos muito. Era horrível. Ela adorava.

Teve um camping no Rio Grande do Sul, no inverno, que a água quente tinha acabado. Então, foi banho frio. Eu já não tomo banho frio no verão, em Manaus, que dirá no frio.

Lembro de outra vez, no Canadá, eu e meu irmão pequeno numa barraca, meus pais em outra. Passa um urso do lado da nossa. O urso para, cheira a barraca, escava com a pata um pouco do lado. Eu tinha certeza de que minha biografia só iria até ali, até aquela notícia terrível no jornal do dia seguinte. Crianças desaparecidas: possível ataque de urso selvagem. Aí a foto da barraca destroçada, marcas de sangue. Meu irmão dormindo, plácido. Lembro de pensar que era bom ele morrer dormindo e não saber que tinha sido comido por um urso. Felizmente, o urso não nos achou minimamente interessantes e foi embora.

Em outra feita, em São Joaquim (SC), quinhentos graus Celsius negativos, minha mãe decide acampar. Sério. Estava geando. O que a pessoa pensa? Isso mesmo: que ótimo lugar para armar uma barraquinha minúscula, triangular, de lona e dormir no gelo. Eu devia ter uns oito anos. Odeio frio até hoje. Os traumas, vocês não conseguem mensurar. Então, trilha sim, acampamento nunca mais. Nem tudo, claro, foi traumático. Que um bom livro nunca te abandona é algo que aprendi com ela. Gratidão.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho