Cansada, depois de um dia que durou aproximadamente quatro meses e meio, chego em casa.
Na sala, os quadros tortos. Ajeito. A pessoa que vos fala tem TOC.
Vou dormir. Acordo no dia seguinte, os quadros tortos.
Começo a pensar em tremor de terra, esclerose, Alzheimer, assombração.
Preciso ir trabalhar, não dá tempo para surtar.
Acerto os quadros novamente e saio.
Volto do trabalho, os quadros tortos.
Sento, preocupada. Sabe, Carolina, não dá para ser tão distraída assim. Mas eu tenho certeza de que acertei os quadros. O que, claro, só piora a situação. Estou alucinando, penso. A sanidade, a pouca que ainda tinha, foi embora.
Eu tenho certeza de que consertei os quadros. Certeza. Mas há uma prova irrefutável na minha frente de que estou enganada.
Chego a googlar se houve algum tipo de tremor de terra na minha região.
Coloco um dos quadros na posição correta, puxo uma cadeira e fico observando. De repente, pode ser algo da fixação, algo que não está seguro e o quadro escorrega depois de ajustado.
Não.
O quadro permanece na posição correta.
Ajusto outro. Nunca entendi física muito bem. Pode ser algum deles que, ao se mover por conta de um parafuso mal colocado, talvez, influencie os demais e saia tudo do lugar.
Não.
Repito o processo até que todos estejam corretos.
Continuo sentada à frente dos quadros, aguardando para descobrir qual deles é o líder do motim.
Nada.
Parados, perfeitos, retos.
Desisto. Levanto. Vou trabalhar.
Volto. Tudo torto.
Estou ficando maluca, penso. Digo, mais maluca.
Acerto os quadros e vou escovar os dentes para dormir. Esqueci de encher a minha garrafinha de água. Levanto. Melhor agora do que no meio da madrugada, me parece.
Acendo a luz no caminho.
O gato pula, assustado. O meliante estava em pé no encosto do sofá, entortando todos os quadros.
Dessa vez, pelo menos, escapei do hospício.
Não, o gato não virou tamborim.