Popstar

O sonho de um auditório lotado se depara com a realidade da sala de aula: perguntas idiotas, burocracia infinita e o exercício diário da paciência
Ilustração: Bruno Schier
05/03/2026

Que meu chefe não me escute, mas meu sonho de princesa é dar aula com aquele microfonezinho de Madonna para um auditório lotado. Claro, precisaria de um assistente, algum pobre coitado — talvez estagiário de pedagogia — para corrigir as avaliações, mas a aula… Ah, a aula… Eu queria um auditório lotado. 600 alunos? Bora lá. É o modelo norte-americano de universidade, onde o college professor dá aula e uma pobre alma fica com a burocracia. O que custa caro é o sujeito com formação; no caso, eu. Então, enfiar 600 almas em um auditório, pagando o salário de um só professor, é, capitalisticamente falando, um bom negócio. Ainda assim, meu sonho de princesa. Seria todo professor um popstar frustrado? Sim, correto.

Enquanto isso, tenho turmas com poucos alunos e outras com muitos, para a mesma disciplina. Impossível fazer com que as aulas sejam iguais. Ainda mais considerando que a turma que tenho com menos alunos é, também, a turma menos responsiva do planeta. Às vezes me preocupo. Será que sofreram algum dano cognitivo? Estão lá, de fato? Apenas o corpo presente; a alma está passando férias em Timbuktu? Morte cerebral? Questões.

Esse negócio de college professor me lembra uma história que hoje eu acho apenas ridícula, mas que, na época, me deu ímpetos assassinos. Quando cheguei em Amsterdam para realizar uma parte da minha pesquisa de doutorado, o bibliotecário do Museu van Gogh perguntou minha profissão. Respondi “college professor”. O sujeito me olhou de cima abaixo e respondeu, em tom irônico e rindo: “oh, a professor, is it?”. Eu respondi séria, sisuda, irritada, com a cara fechada, quase sendo extraditada: “yes, is there a problem?”. E foi ali, no dia zero, que entendi a xenofobia que iria enfrentar. Isso foi em 2017.

Corta para 2024. Eu, na França, fazendo o meu segundo pós-doutorado, na Sorbonne. De novo um bibliotecário. E olha que eu amo bibliotecas. Vou fazer meu cartão da biblioteca. O bibliotecário pergunta o endereço. Respondo. Ah, não é possível. Respondo, então, o do Airbnb. Perfeitamente, aqui está seu cartão. Claro, um endereço temporário em Paris é muito mais importante do que um permanente em São Paulo. Ah, a xenofobia… Que delícia.

Voltando: eu, aqui, professora, 2026. Aula de História da Arte. Grécia. Uma aluna me pergunta se todos os gregos tomavam banho ou eram só os ricos.

A profissão de docente não é paga o suficiente.

Mesma turma, semana seguinte, Roma. Conto, como curiosidade, sobre o fast-food encontrado em Pompeia. Outra aluna me pergunta qual era o nome da franquia. A vontade que eu tive de responder, senhor, nem conto.

Lembrei de um outro, anos atrás, que era contra a família Medici por causa (sic) da Lei Rouanet.

Ou, ainda, o cidadão que interrompeu minha aula para anunciar seu desgosto pelo Impressionismo e que ele achava que o Monet era um idiota.

Uma aluna queria muito, muito, muito saber qual era a marca de batom que a Cleópatra usava.

Teve um outro, em uma pós-graduação em História da Arte, em que eu lecionava Arte Clássica, que me disse acreditar que os ícones bizantinos (todos) eram retratos de alienígenas. Dessa parte ele tinha certeza. O que ele apenas achava era que eram de Urano.

Lecionar é 20% conhecimento do assunto, 40% lidar com burocracia, 40% meditação e transcendência.

Constará de meu epitáfio: não foi de tédio.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho