Tudo o que é estranho, diferente, esquisito, distante, difícil e, portanto, interessante, eu conheço com filho ou com alunos. Essa geração que já nasceu digital não conhece limites, ainda bem.
Foi filho quem me mostrou King Gizzard & The Lizard Wizard e The Hu.
Uma aluna me mostrou o excelente Blue Period, um anime do mundo das artes visuais.
E assim, de dica em dica recebida, me mantenho viva. Eu ia escrever jovem, mas é mentira. Viva já está bom.
Recentemente fui apresentada ao Kenshi Yonezu. Ele chegou na minha vida como cantor. E, de repente, é o meu mais novo hiperfoco. É compositor e ilustrador. Ilustrador. Gente, cada arte melhor que a outra.
Na Wikipédia dele, lê-se: “Kenshi Yonezu nasceu em 10 de março de 1991, na parte rural de Tokushima, no Japão, de uma família pobre. Quando criança, Yonezu achou difícil se comunicar com outras pessoas, especialmente com o pai. Yonezu normalmente achava que sua mãe o entendia”.
Como seria de se esperar de um artista que transita tanto no musical quanto no visual, muitos de seus clipes são animados. O hit Iris Out, por exemplo, entrega tudo o que promete.
Virei fã.
Infelizmente, essa é a geração que também possui indivíduos apreciadores da poética “Peão todo tatuado. Beijo de paieiro, perfume do mato.” Que bom que alguém gosta. Eu tô fora. Para quem não entendeu o meu asco, o sabor desse beijo é daquele cigarro artesanal de tabaco, que fede feito a morte. Alguém do seu lado fuma esse souvenir do Tártaro e, de repente, até a sua meia cheira a paieiro.
Certeza de que a recepcionista que disse para uma senhora de idade que “o preferencial demora mais, né” gosta de perfume do mato. Certeza. As coisas que a gente escuta quando está preso ad aeternum nos labirintos da burocracia… Ajuda, São Manoel (o padroeiro que concede a paciência e que provavelmente me odeia).
Kick back, outra música do Yonezu, fala de sobrevivência em uma realidade miserável, sem perder os sonhos de vista e sem permitir ser esmagado por esse caos opressor. É a música de abertura de um anime mega famoso, o Chainsaw Man. O mangá/anime fala de um mundo onde os demônios nascem dos medos humanos, mas com quem é possível firmar contratos para usar uma parte de seu poder. Exatamente como a burocracia funciona. São demônios atrás de uma mesa falando que a pessoa precisa de uma segunda senha para mudar um endereço, que a senha que ela tem é para essa outra coisa aqui e não, senhora, não basta uma senha de atendimento, sim, senhora, o atendimento é o mesmo e a senhora é uma pessoa só, mas são dois serviços diferentes.
Chego a sentir o perfume do mato no ar.