Época de avaliação, para professor, é tão infernal quanto para aluno. Como estamos em 2026 e já inventaram a internet, algumas são entregues via Moodle, um sistema open source muito bom, recomendo. Nele, existe a possibilidade de compartilhar arquivos, realizar provas, abrir fóruns de conversa e mais um monte de recursos. Entre eles, criar áreas de recebimento de tarefas. Quem cria e disponibiliza cada uma é o professor, turma a turma. Eu gosto tanto do Moodle que tenho uma instalação particular dele para montar meus semestres com antecedência e só enviar o arquivo prontinho para o sistema da instituição no começo das aulas. De onde você pode facilmente concluir que: a) eu sou sim nerd; e b) o conteúdo das minhas aulas é bem organizadinho.
Na instituição onde trabalho, cada etapa avaliativa do semestre, de cada turma, tem necessariamente uma prova teórica e um trabalho prático. O que é teórico e o que é prático dependem de cada disciplina, mas vamos lá. O trabalho normalmente é entregue pelo Moodle.
Chego para dar aula, aluna me diz que ainda não entregou porque eu não abri a tarefa. Digo que abri. Ela insiste: não, não abriu. Eu falo olha de novo, abre no celular aí. Minha nossa, está aqui, caramba, procurei feito homem.
Acredito que a gente (re)valida a realidade o tempo todo. Você é homem e é criado acreditando que homens não encontram nada, mesmo que esteja no seu nariz, assim você agirá. Procurar feito homem, portanto, é apenas mais um dos muitos estigmas que recebemos, homens e mulheres, o tempo inteiro. Do tipo homem não chora, mulher dirige mal e outras asneiras.
Entretanto, uma coisa que poucos percebem sobre essa geração é que eles são irônicos. O feito homem é usado por meninas e meninos igualmente. É uma geração que nasceu depois dos memes e se comunica dessa forma.
Vejo com bons olhos. O fato de não se levarem tão a sério os torna mais tolerantes. De forma geral, é uma geração menos preconceituosa. Claro, gente ruim vai ter em qualquer lugar, em qualquer idade, mas a quantidade está diminuindo, me parece.
São também mais atentos às atrocidades linguísticas que minha geração ainda comete sem pensar no que está falando, como “programa de índio”, “judiar”, “mercado negro”, “a dar com pau” etc. Programa de índio é uma que eu usava até cair a ficha, como dizemos nós, anciãos que usamos telefone público, antes do celular.
Volta e meia aprendo uma expressão nova. A última foi “bater a nave” para se referir a alguém que bebeu demais.
Nós, os antigos, também temos expressões boas. Deveriam ser ressurretas, na minha opinião. Algumas das que eu mais gosto e, confesso, ainda uso, são “a cobra vai fumar”, “chorar as pitangas”, “casa da mãe Joana”, “dar com os burros n’água”, “arroz de festa”, “matar cachorro a grito”, “chato de galocha”, “os olhos da cara”, “pagar o pato”, “chutar o balde”, “salvo pelo gongo” e “pôr a mão no fogo”. Sim, eu sou idosa.
Outro dia, usei “vira-casaca” com uma pessoa dessa geração mais nova. Não entendeu. Perguntou se casaca era um tipo de blusa. O paulistano chama casaco de blusa. E biscoito de bolacha, mas não quero começar mais uma guerra no planeta, as que já temos são suficientes.
Achei ótimo. A gente não devia ter nem terno no Brasil. País tropical, sabe? Vamos chutar o pau da barraca e ir todo mundo trabalhar de bermuda, chinelo e camiseta fresquinha.