Nerdices e quetais

Do Linux à política, do celular à alimentação, cada decisão revela nossas prioridades num mundo em que pensar se tornou um luxo cada vez mais raro
Ilustração: Kleverson Mariano
22/10/2026

Correndo o risco de parecer mais nerd do que eu de fato sou, migrei completamente para o Linux. Eu já usava o Ubuntu havia tempos, mas recentemente consegui me livrar da minha última amarra que me prendia ao Windows e, finalmente, sou uma pinguim. Depois de muitos testes, acabei mudando todas as minhas instalações para o Fedora. O motivo foi o suporte nativo à minha canetinha de desenho.

A maioria dos meus amigos anda desanimada com o Brasil, com as possíveis trevas que nos aguardam. Nós não perdoamos. Nós vamos lembrar em quem as pessoas que nos cercam votaram. Não esquecemos. E mantemos essa informação catalogada com cuspe e ódio porque é uma escolha. As pessoas têm opção de se informar melhor e não o fazem por má-fé. A possibilidade da burrice acabou na comprovação de um governo similar anterior. Não há desculpa. Naquele momento, poderia ser ignorância. Hoje é só mau-caratismo mesmo.

Nossa, Carolina, que salto de raciocínio. Na verdade, não. Estou falando de escolhas. Claro que o cobertor é curto e cada escolha é, sim, uma renúncia. Entretanto, elas existem, tanto as escolhas quanto as renúncias. Escolher não ter algo em nossas vidas é tão válido quanto escolher ter. Podemos escolher software livre e sem ser pirataria. Podemos escolher a pirataria. Podemos escolher pagar pequenas fortunas extorsivas e repetitivas/mensais por algumas ferramentas. São escolhas. Eu gosto de softwares livres também pela estabilidade, ausência de vírus, atualização da comunidade, facilidade de instalação de aplicativos etc. Mas eu sou nerd. Tudo bem você não ser. Seu computador, suas regras.

Escolhas.

É também uma escolha passar sei lá quantas horas vendo vídeo idiota no celular, divulgando mensagens sem qualquer tipo de verificação ou embasamento, batendo boca com doido na internet. Ou, deixo aqui uma ideia: largar o celular e ler um livro, olhar a vista, sair para uma caminhada, fazer cafuné no cachorro, preparar uma comida saudável ou apenas descansar. Confia em mim, é possível.

Escolhas.

Em um mundo onde os deuses já criaram o micro-ondas e a airfryer, o sanduíche de plástico com cheiro de morte é também apenas uma escolha. Você consegue fazer melhor. Comer melhor. Se tratar melhor. E beba água.

Escolhas.

Vi um meme um dia desses que dizia mais ou menos assim: “considerando o meu gosto em homens, se eu usar uma IA como namorado, será essa que vai dominar o planeta e acabar com os seres humanos”. Me senti representada. Eu falei escolhas. Não afirmei que eram boas. Nem sempre escolhemos bem. Mas há uma escolha. Sempre há.

Ou, pelo menos, sempre há para quem pensa. Para o apocalipse cognitivo em que vivemos, pensar é um luxo de poucos. Para o sujeito que apenas repete discursos sem reflexão, a única escolha é entre ração ou capim.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho