Minicrônicas do mau humor

Parafuso perdido, cachorros inconvenientes, política e elevadores testam a paciência de quem já não tem disposição para fingir calma
Ilustração: Eduardo Mussi
08/10/2026

Vou ajustar o pezinho do monitor e, claro, perco para todo o sempre um dos parafusos. Varri o ambiente todo. Arrastei móveis. Liguei a lanterna. O parafuso agora habita em uma outra dimensão. Nunca mais. Ou melhor, vou encontrar quando estiver andando descalça e pisar no maldito. Certeza.

Me sinto vivendo no Tribunal de Minúsculas Causas.

A labirintite atacou, a tendinite voltou, a insônia nunca foi embora. Meu corpo não está satisfeito com o mundo e tem deixado isso cada vez mais claro. Gostava mais quando ele era mais sutil ou quando eu tinha feito algo ativamente para a reclamação. Digo, algo além de envelhecer, é claro.

A almofada favorita dos felinos foi movida. Nem preciso contar da reação deles, né?

Venho de uma família que debate política no café da manhã. Minha bolha só fala de política. Escrevo essa crônica antes das eleições e será publicada bem depois, com o resultado mais que conhecido. Espero, de coração, que ainda exista um país para chamar de meu.

Recentemente, descobri em quem algumas pessoas votam. Foi horrível. Uma eleitora de extrema direita queria me convencer de que o Lula afirmou apoiar molestadores de crianças. Ela jurava de pés juntos que viu ele falando isso com todas as letras. Ela tinha o vídeo para provar. Ainda tentei, em vão, explicar o que é um deepfake. Lá pelas tantas, só desisti. Tenho desistido com uma certa frequência e isso é preocupante.

Saio com Nina. Uma pessoa anda com dois cachorros sem guia. Até aí, tudo bem. Quisera eu ter essa confiança na rebelde cantora de jazz. O problema é que os cachorros partem para cima da coitada da jazzista, que só queria chegar no parque, fazer seu xixi, cheirar uns tantos outros, andar na grama e ir embora. Não, precisa desviar desses dois meliantes no caminho. Eu pegaria Nina no colo se no colo ela coubesse. Afugento os bandidos. A pessoa me olha feio. Colega, se você não controla os seus cachorros, eu o farei. Nina entra correndo no parque, um pouco assustada, um pouco incomodada. Nós duas, irritadas.

Um dos dois elevadores do meu prédio está em reforma. O prédio é velho. O vão do elevador é pequeno. A capacidade é reduzida. É um prédio de 25 andares e, portanto, conseguir entrar na caixa mágica passou a ser um artigo de luxo e desejo. Chamo o encantado. Abre a porta. Um casal com duas malas ocupa quase todo o espaço. Mal-humorada, a mulher ranzinza que tenta entrar empurra uma das malas e grunhe algo como “três pessoas, duas malas, cabe”. O homem responde “três pessoas, duas malas e um cachorro” e aponta para um salsichazinho escondido atrás de uma das malas. O tom de voz da mulher irritada muda completamente. “Oh meu deus meu lindinho vem cá coisa fofa que simpático que você é”, já totalmente abaixada no minúsculo elevador, quase matando a mulher do casal esmagada com uma de suas próprias malas. A mulher rabugenta pode ou não ter sido eu.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho