Macho woman

Consulta médica, atraso, paranoia e alívio provisório: o cotidiano transforma o medo em humor e a raiva em exercício de respiração
Ilustração: Kleverson Mariano
15/01/2026

Completamente paranoica, marco dermatologista especializado em tumores. Uma pinta me parece maior. Está maior. E inchada. Meu deus, é câncer, certeza. Man up, Carolina. Respira e vai ver isso.

Espero os 75 minutos de atraso pela consulta que não durou mais do que 10. Tudo bem, gosto de fugir de médico. É a minha São Silvestre.

“Não tem sinais de malignidade” é o novo eu te amo.

O ano começa bem. Finalmente consegui uma boa manicure. Ela trabalha em uma barbearia mequetrefe de bairro. É filha dos donos, o que explica uma profissional tão gabaritada em um lugar tão horroroso. A gente ajuda pai e mãe mesmo. Assim é a vida. Não tenho barba para saber se o restante dos serviços prestados é bom, mas fico maravilhada com a unha e marco para a semana que vem. Manterei vocês informados a respeito dessa emocionante e dificílima saga.

Na sala de espera do dermatologista dublê de Village People, reconheço a esposa de um colega de trabalho. A conversa, obviamente, não vai além do esperado do local, mas até hoje não consigo lembrar o nome da moça por nada neste mundo. É simpática, não me fez nada, coitada, só não lembro.

O médico me manda tirar a camisa para “dar uma olhada” nas pintas. “Você tem muita pintinha, né?” A resposta “meu senhor, eu sou branquela feito massa corrida; queria o quê?” acontece apenas na minha cabeça. Respondo “hmhum” e me calo.

O médico, tentando ser mais gentil do que de fato é, recomenda que eu não esqueça do protetor solar. Para esse tipo de conselho, eu tinha entrado no YouTube. Carolina, controle a raiva, Carolina, não deixe a raiva dominar, Carolina, não perca o réu primário. Carolina, respira.

Como odeio médico, minha nossa senhora.

Lembro de filho, que, de alguma maneira, conseguiu uma alvura ainda mais alta do papel, na praia, aos dois, talvez três anos de idade. Eu o levava, exatamente por causa da deficiência de melanina, de manhã bem cedo, com limite de saída às 9h. Um belo feriadão qualquer desses, às 8h30 já tinha gente na areia. Ele, então, descobre que a praia não era exclusivamente nossa e, aborrecido, me diz “mãe, tem gente, vamos embora!”. Concordei plenamente e nós fomos.

O bigode, dublê de Village People, sósia do David Hodo, me diz que está tudo bem, que não me preocupe e que, se eu estiver preocupada ainda daqui seis meses, que volte para um acompanhamento. Fico contente. Talvez tenha até mesmo esboçado um sorriso. Gastei as últimas horas da minha vida para ouvir isso. Está ótimo. Tudo bem, Carolina, respira, pode ir embora.

Se algum dia você esbarrar comigo na rua e eu estiver com o humor de um javali ferido, não ligue. Estou indo a algum médico. Não é com você. A menos que você seja médico. Aí é com você, sim.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho