Ecce Homo

De Leonardo da Vinci ao Ecce Homo desfigurado, uma sequência de restauros desastrosos expõe, com humor e ironia, os perigos de reconstruir o Brasil hoje
Ecce Homo, de Elías García Martínez, e o restauro realizado por Cecilia Giménez
29/10/2026

Escrevo essa crônica antes do resultado das eleições. Assim como os outros 158,7 milhões de eleitores, eu também sou o puro suco da ansiedade e do estresse. Já pesquisei possibilidade de emprego, custos de moradia e afins em Portugal, Espanha, Itália, Canadá, Uruguai, França e Grécia. Eu falo grego? Não. Mas aprendo, tudo bem. Não parece difícil. Depois desse tour desesperador na internet, decidi que o melhor caminho a seguir era o da dissociação. Então, dediquei a semana a fotos de gatinhos e cachorrinhos, moldes de costura e vídeos de restauro de obras de arte. Talvez seja o algoritmo do meu cérebro, mas rapidamente caí nos restauros desastrosos da história da arte.

O caso de que eu sempre me lembro primeiro é o da Última Ceia, do Leonardo da Vinci. Leonardo não sabia fazer afresco e tentou umas coisas que não deram lá muito certo. Ele termina em 1498 e, em 1517, já tinha sinal de deterioração. A pintura fica num lugar que era o refeitório dos padres e, atrás, tinha a cozinha. O povo achou que esse negócio de dar a volta com a comida não estava com nada e decidiu abrir a marretadas uma porta, bem onde um dia o Cristo já teve pés, coitado. Depois disso, mesmo sabendo que o Cristo jamais voltaria a ter pés, começam os restauros. Um desastre depois do outro. O primeiro, uma repintura de Michelangelo Bellotti, em 1726, que decide preencher os buracos onde o afresco tinha caído com tinta a óleo e tacar um verniz pesado por cima. Tenta fazer isso em gesso aí na sua casa e me conta se deu certo. Em 1770, um sujeito chamado Giuseppe Mazza raspa fora o trabalho de Bellotti e repinta os apóstolos a partir do referencial criativo e alucinado vozes-da-cabeça-dele. Aí Napoleão invade Milão e usa o lugar como um estábulo. Em 1800, o refeitório é inundado. Em 1821, o restaurador Stefano Barezzi tenta destacar o mural da parede, acreditando se tratar de um afresco tradicional. Nada dá certo e essa tentativa acaba destruindo pedaços da seção central. Ele cola os fragmentos de volta com cola comum. Em 1901, vem o primeiro cara que sabia o que estava fazendo. Luigi Cavenaghi realiza uma análise detalhada da química da pintura e faz uma limpeza profunda, conseguindo estabilizar a obra que estava se soltando da parede. O problema é que, em 1943 (Segunda Guerra, caso você não tenha ligado a data ao evento), um bombardeio atinge a capela. Finalmente, em 1978, a restauradora italiana Pinin Brambilla Barcilon e sua equipe passam 21 anos limpando o mural e conseguem restaurar a obra decentemente. Essa mulher é incrível e foi ela também que conseguiu restaurar os afrescos do Giotto na Cappella degli Scrovegni, em Pádua.

Não pense você que isso é um problema antigo. Em novembro de 2020, viralizou a restauração desastrosa de uma figura decorativa na fachada de um edifício histórico em Palência, na Espanha, onde hoje funciona uma agência do banco Unicaja. O relevo da mulher sorridente acabou virando algo mais parecido com uma batata.

O desastre mais popular é o do Ecce Homo (afresco de Elías García Martínez), que fica no Santuário da Misericórdia (Borja, Espanha). Em 2012, a paroquiana Cecilia Giménez repintou o rosto de Cristo. Tem até meme. Tem até figurinha de whatsapp. Tem até camiseta. Caneca. Ecobag. Ecce Homo é pop.

Em 2016, arruinaram uma torre no Castelo de Matrera (século 9), em Villamartín (Cádiz, Espanha), com concreto e argamassa. Ficou apelidado de “Ecce Homo da arquitetura”.

E é nisso que penso toda vez que alguém me fala de “reconstruir o Brasil”.

Aqui na torcida para o resultado dessa eleição não ser um Ecce Homo.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho