O primeiro velório de que tenho lembrança ou vivência, tanto faz, foi o da família de um colega de escola. Em um acidente de carro, ele perdeu pai, mãe e irmã ao mesmo tempo. Nunca e nada jamais apagarão da minha memória a imagem do L., sozinho, em pé, ao lado de três caixões fechados, no auge dos seus 13 anos de idade.
Quando I., morreu, a mãe dele me pediu que avisasse as pessoas. Nós fomos amigos, sócios e namorados. Um relacionamento que ocupou 26 dos meus então 35 anos de existência. Ainda no hospital, que foi minha rotina por alguns meses, destravei o celular dele, abri os contatos e comecei. Um por um. Honestamente, acho que o meu asco a telefone é uma consequência desse dia.
Quando E. morreu, a viúva dele montou um velório, enterro, missa e afins. Ele era ateu convicto. Não fui.
Quando minha mãe estava muito doente, me deu instruções claríssimas sobre o que queria. O que queria para seu enterro, para o seu site, para os seus livros, para suas redes sociais, para tudo. Uma mulher de um pragmatismo desconcertante. Me entregou uma prancheta com uns papéis em branco e uma caneta bic espetada e disse “estou morrendo, anota aí”. Anotei.
Quando S. morreu, eu estava sozinha. Fui eu a pessoa chamada para autorizar a traqueostomia. Fui eu a pessoa chamada para autorizar a hemodiálise. Fui eu a pessoa chamada para reconhecer o corpo. Não desejo isso para ninguém. E fui eu quem esvaziou o apartamento. E cuidou da papelada, de tudo. Ela era uma mulher muito reservada. Segui meu instinto e só chamei seus dois melhores amigos. E fomos, nós três, à Santa Casa. Minha eterna gratidão a esses — agora meus — amigos.
Depois dessa experiência, segui o exemplo da minha mãe e deixei instruções claríssimas para o meu filho. Não estou morrendo, acho, espero. Pelo menos não mais do que todo ser vivo. Mas achei melhor facilitar o que está, ainda, ao meu alcance.
São muitas perdas, muitas ausências.
Em Antes do silêncio (Dublinense, 2023), Rogério Pereira fala sobre o final de uma mãe. Eu ainda não consegui elaborar em texto o término da minha. Não sei se um dia conseguirei. Talvez não. O livro é belíssimo e forte em iguais proporções, recomendo.
Chego agora do velório da mãe do F. Esse é um momento que exige pessoas queridas em volta. Perder mãe é muito grave. É perder parte da biografia. É perder o testemunho do processo que nos fez gente. É o desligamento do compartilhamento de uma memória vivida, sentida. É um apagamento. Em julho próximo serão dez anos sem a minha.
Nina Simone, Frederico e Verônica grudam em mim.
Em silêncio.