Amiga mais que querida me convida para ir na roda-gigante. Tal qual a menina de 8 anos que às vezes sou, vou. Vou entusiasmadíssima. Graças à sua notória sabedoria dos paranauê, pegamos o pôr do sol lá de cima. Minha eterna gratidão aos amigos que pensam nos detalhes importantes por mim.
Em um breve parêntese, estou desde o lançamento, em outubro de 2025, tentando emitir a minha CNDB (Carteira Nacional Docente do Brasil). Estou colecionando protocolos de reclamações, ouvidoria, chamados e afins, tanto no MEC quanto no INSS. Ela garante meia-entrada para professores em vários lugares. Roda gigante, inclusive. Quem sabe algum dia? Torçam por mim.
Entrar e sair da cabine da roda-gigante dá um nervoso danado, porque ela não para. Pára, que saudades desse acento. Anda bem devagarzinho, mas não para nunca. Para piorar o meu nervosismo, as cabines são trancadas por fora. Sei que faz sentido. Entendo perfeitamente a necessidade dessa ação. Mas eu sou claustrofóbica.
Rapidamente o minipânico se dissolve e fica só a experiência da vista urbana de São Paulo, que é linda. Eu realmente adoro essa cidade. Mesmo com os paulistanos colocando alcaparras em um bife e chamando de Osvaldo Aranha, ou pintando pipoca de rosa-choque, ou chamando biscoito de bolacha. Tudo bem. A gente deixa passar esses pequenos defeitos. Ninguém é perfeito mesmo.
Na cabine abaixo da nossa, um jovem casal acha que as janelas são mais opacas do que de fato são. Quem nunca?
Observamos a pista de skate de cima. Parecem bonequinhos de lego com rodas. Consigo entender o ódio mortal que alguns cachorros têm por skatistas. Deve ser muito estranho, na perspectiva do cachorro, o ser humano que desliza.
Olho a cidade e acho mágica. Eu brinco com meu filho toda hora, dizendo que, se algum dia eu me aposentar, me mudo para uma praia qualquer. Ele ri. Até agora não sei se ele não leva a sério a ideia da aposentadoria ou a de sair de um centro urbano.
Devo ter sido engenheira civil em alguma encarnação passada. Fico absolutamente fascinada com a estrutura da roda-gigante. Parece uma roda de bicicleta. Uma roda de bicicleta gigante. Uma roda gigante, dããã.
Gosto de tudo. Gosto até do engarrafamento na Marginal Pinheiros, às seis da tarde. Claro, gosto porque estou vendo de cima e não empacada feito uma mula manca atrás de um volante. Mas gosto. Acho bonito. As luzes vermelhas dos freios e as brancas dos faróis são poéticas, como se fossem glóbulos vermelhos e brancos em uma das artérias da cidade. Fico um tempo hipnotizada pelos traços coloridos que minha vista ruim e a chuva criam na minha cabeça.
Às vezes acho que, se mais gente fosse míope, teríamos uma visão melhor de nós mesmos e do mundo.
Próximo rolê é passear de balão.