De potinho em potinho

Arrumar o ateliê vira um exercício de apego, memória e desapego, enquanto caminhadas e pausas revelam o valor de desacelerar e mudar a rotina diária
Ilustração: Kleverson Mariano
20/08/2026

Arrumando o ateliê, gasto um tempo enorme para saber se me desfaço de algumas coisas ou não. Material de arte é caro, estraga e às vezes é chato de encontrar. Eu gosto de tudo e não quero me desfazer de nada. Nem mesmo do material de técnicas que não faço mais desde a década passada. E assim, de tubinho em tubinho, de potinho em potinho, não tem lugar para mais nada. Então jogo fora. E me arrependo imediatamente. Não vou usar aquilo nem na próxima encarnação, mas é tão bonito. É tudo tão lindo.

Minha mente vai para outro lugar e cria todo um novo projeto de exposição em arte visual. Não tenho tempo, dinheiro ou energia para isso, mas vou fazer de todo jeito. É como eu faço mais da metade das coisas que faço; estou acostumada.

No meio da arrumação, descubro uns originais de desenhos meus, já publicados. Não joguei fora, mas tive muita vontade. Minha mãe fazia isso. Ela jogava tudo fora. Em texto, inclusive, era um método de escrita. Ela escrevia o livro. Aí apagava o arquivo completamente e escrevia de novo. O que era bom, o que prestava, aparecia de novo. Era uma metodologia radical, mas coerente com quem ela foi. Só não joguei fora os meus originais porque queria ter os dela.

Pastas e mais pastas com CDs de dados gravados, backups antigos de coisas que eu nem me lembrava mais de ter feito. Os computadores novos às vezes nem têm leitor de CD mais, mas guardei de volta. Esses morrem comigo.

Minha arrumação não vai bem. Tudo o que pego, guardo de volta. A ideia era reduzir a quantidade de coisas. Fracassei miseravelmente.

Cansada do sobe e desce escada, interrompo a arrumação. É um erro grave e eu sei disso. Parar esse tipo de ação significa retomá-la daqui a um par de anos, com um certo otimismo.

Olho em volta e penso que uma das melhores atitudes que tive foi mudar para um computador desktop, preso à mesa. Meu notebook velho, que ainda existe, mal e porcamente roda o LibreOffice. Programas gráficos, nem pensar. Com isso, não trabalho o tempo todo, todo o tempo, sem parar.

Tenho ido e voltado a pé do trabalho também. Demoro mais, obviamente, mas é uma constante e não uma variável. Sei quanto tempo levo e é sempre o mesmo tempo. Quem caminha não fica preso no trânsito, não pega metrô lotado nem se atrasa porque o trem sei lá o que sei lá onde.

O bom é que, junto com as pernas, a cabeça também anda. A minha anda como uma capivara bêbada passando pela marola dos hippies maconheiros, mas anda.

Quem diria que descanso e exercício físico me fariam bem? Daqui a pouco vocês vão falar que uma alimentação regrada é saudável. Francamente, não sejam ridículos.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho