Conluio, que chama. Não, não estou falando do último escândalo da política, da economia ou das relações internacionais. Não estou falando das mais claras evidências da falência social contemporânea. Estou falando dos bandidos que moram aqui em casa.
Estou certa de que Nina Simone subornou Frederico e Verônica, acreditando que, por serem filhotes, eu não faria nada drástico. Acreditando que nem mesmo ficaria verdadeiramente zangada.
Quando filhote, Nina Simone comeu dois sofás, uma poltrona, nove livros, duas mochilas, uma bolsa, um guarda-chuva, um estojo, seis almofadas, três squeezes, um travesseiro, doze chinelos, um pincel, três cobertas, três guias, cinco bichos de pelúcia e cinco tupperwares.
Ela tinha razão. Não dei nem bronca.
Frederico quebrou, às duas da manhã, uma garrafa de vidro cheia de água. Como eu sei quem foi o criminoso? Nina Simone e Verônica dormiam comigo, evidência um. Frederico pulou, correndo, assustado e inteiramente molhado, em cima de mim, evidência dois.
Comprarei uma garrafa de plástico.
No dia seguinte, Verônica errou o cálculo do salto, bateu na quina da mesa, arremessou um prato que, por sua vez, espatifou-se em oitenta pedacinhos por toda a sala. Pega em flagrante. Por sorte, eu ainda não tinha me servido, e o prato estava limpo.
Estou até hoje achando cacos de vidro e cerâmica pela casa.
Agora a diversão dos três bandidos é morder cápsulas de café. Estou ouvindo um crec-crec. Olho: Nina Simone em cima de uma mancha preta. Olho com mais atenção: é pó de café. Ela está roendo uma cápsula de café. Tiro de sua boca. Verifico se não está machucada. Reclamo, limpo. Acho estranho: Nina não alcança o lugar onde ficam as cápsulas.
Escuto um tec-tec-tec. Verônica e Frederico jogando futebol com outra cápsula. Até uns dez minutos atrás, eu as mantinha em um pequeno baldinho de metal, do lado da cafeteira. Agora estão em uma caixa fechada. De plástico.
Estou até hoje achando cacos de vidro, cerâmica e cápsulas de café pela casa.
Conluio, que chama. Motim. Tramoia. Complô. Conchavo.
Um alcança e derruba no chão; o outro morde e abre; o terceiro espalha.
Meliantes. Bandidos. Delinquentes juvenis.
Pegadinhas de café e lama por toda a casa. Toda uma instalação artística, uma ocupação, quase. Site specific.
Nina Simone, deitada placidamente no sofá, me olha com cara de e agora, quem é o vórtex do caos? Ehm? Ehm?
Fico em silêncio, que é o que me cabe desse latifúndio.