Comendo na Torre de Babel

Sabores, hábitos e estranhamentos se misturam numa jornada curiosa pela culinária oriental, onde experimentar também é conhecer um pouco do mundo
Bairro da Liberdade é um dos principais pontos turísticos de São Paulo
26/03/2026

Não sou uma pessoa saudosista. Isso dito, quando morei nos Estados Unidos, tinha um pão em lata que a gente abria, ele expandia e, então, colocava-se no forno para assar. Pão fresquinho. Na hora. Ali. Numa lata. É muito difícil não amar o capitalismo nessas horas.

No bairro Liberdade, aqui em São Paulo, descobri o bao. Um pãozinho pré-pronto que a gente compra, joga na airfryer e recebe de volta dos deuses da tecnologia culinária um pão macio, suculento, quentinho. Vocês não estão entendendo como a culinária oriental é superior: mais prática, mais saborosa, mais nutritiva. Não por acaso, estamos falando de uma população que vive bem mais que os ocidentais. Alguma resposta existe. Pode ser a alimentação (minha aposta), a religião (duvido muito), o estilo de vida (é a galera que tem uma palavra para “morrer por excesso de trabalho”, karoshi, talvez não). Alguma resposta existe.

Apostando na culinária, vou rotineiramente a mercados orientais. Sei distinguir dentre as muitas versões de missô, sei escolher os temperos, os congelados importados (fuja deles, caríssimos), as carnes… Gosto particularmente das balas com a figurinha chorando na embalagem, como a Super Lemon. Adoro gente chorando na embalagem.

O problema é que o bao é caro. Não individualmente, mas fica caro se considerarmos o meu vício no pão quentinho de manhã. Fica caro quando a medida é todos os dias. Para isso, corri para as receitas online. Fiz uns pãezinhos deliciosos. O bao, ainda não. Consegui uma receita, teoricamente fácil, em japonês, de um site chinês, traduzida para o inglês. Ah, a internet. Ficou bem mais ou menos. Como é uma possibilidade, vou jogar a culpa na tradução e não nas minhas capacidades culinárias. Sempre bom poder culpar o tradutor, ainda que robótico. Sempre bom poder culpar robôs a qualquer momento também.

Ando de olho em uma panela para hot pot. É possível que uma daquelas coisas — traquitanas, aparelhos, sei lá como chama — de fondue sirva. Hot pot é um caldo que fica fervendo na sua frente e você vai colocando comidas dentro. Cozinha, tira, coloca no pratinho do lado para esfriar um pouco e come. Não, não é uma reinvenção da sopa: você precisa experimentar para entender. A origem é chinesa (Huǒguō) e encontra algum paralelo com o churrasco coreano (Gogi-gui), que também coloca o cozimento do alimento no centro da mesa e é outra delícia.

Estou convencida de que o corte que eles fazem das carnes é mágico. As fatias são finíssimas, como se toda carne fosse preparada para ser um carpaccio. Adoro essa Torre de Babel culinária. E aí você pega essa folha de carne e cozinha, assa, ferve, grelha, qualquer coisa. Fica macio a ponto de tornar facas instrumentos dispensáveis.

E aí tem os cogumelos. É todo um setor profissional da comida. Eu, que sou avessa a essas coisas e não gosto nem de assistir a série para não ficar amarrada, assinei um serviço de entrega de cogumelos. Meu pai tem uma assinatura de ovos de galinhas felizes. Como será que sabem? A galinha fala em terapia? Cada doido com a sua mania. Na época da pandemia, eu tinha também uma assinatura de hortifruti, já que não dava para ir à feira. Foi útil naquele momento, mas quem realmente gosta de verduras e legumes gosta de escolher. Dar aquela apertadinha, sentir o cheiro, ver se está com uma cara boa, essas coisas.

Na frente do restaurante de hot pot, na Liberdade, aqui em São Paulo, tem um mercadinho. Os produtos e as gôndolas estão etiquetados em chinês, coreano e japonês. As embalagens também não ajudam em nada. O mercado é para os locais, e eles não fazem a menor questão de agradar os turistas (eu) que vão lá atrás de novidades. Eu estou exatamente no meio do caminho: não acho mais que os produtos sejam “diferentes”, mas tampouco sei ler ou explicar o que é cada coisa. Compro no puro instinto.

Se você quiser se aventurar por esse caminho, explico que existe uma lei no Japão que diz que o produto ilustrado na embalagem tem que ser exatamente igual ao que está dentro, inclusive em tamanho. A imagem não tem aquele engodo de ser “meramente ilustrativa”. Então, se por acaso, uma situação hipotética aqui, você quiser comprar semente de girassol com wasabi e na embalagem aparecer com casca, acredite. Vai por mim, acredite.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho