ChatO

No apocalipse cognitivo em que vivemos, muitos já não veem diferença de qualidade entre a mente humana e a máquina
Ilustração: Bianca Rivetti Burattini
19/02/2026

Gosto de tecnologia. Trabalho com tecnologia. No passado, foram muitos boletos pagos com computação gráfica, webdesign, diagramação e afins. Hoje, muitas pesquisas usando grafos relacionais, cartografia interativa e outras traquitanas.

Entretanto, só uso inteligência artificial para trabalhos puramente braçais. O limite máximo da inferência da máquina é o meu mínimo. De uma forma geral, evito trabalhar com quem — máquina ou pessoa — seja conhecidamente burro. Ou, pelo menos, mais burro do que eu.

O meu histórico tecnológico faz com que as pessoas assumam que eu estou interessada em descobrir novas ferramentas de inteligência artificial. Só tenho interesse em informação não solicitada quando é fofoca. Fofoca, minha gente, pode me contar sempre. Ou foto dos seus bichos. Sempre quero ver um bichinho fofo. Qualquer assunto que o google resolve, por favor, não.

Estou eu lá, sentada em paz, olhando pro teto como sempre, com a cabeça, pelo horário, pensando no almoço, e o cidadão diz, animadíssimo, que descobriu a ferramenta blá-blá-blá que eu certamente conheço e sei lá mais o quê. Parei de ouvir.

Depois do que me pareceu um mês de falatório, percebo pelo tom de voz que tinha sido feita alguma pergunta. Respondo, baixinho, que não uso essas ferramentas para criar nada, só para trabalhos repetitivos. Conto, com algum entusiasmo até, de quando o ChatO converteu pra mim uma lista enorme de referências que estavam na ABNT e que eu precisava na norma de Chicago. Ou quando eu precisei transformar uma tabela com quase 10 mil entradas da notação decimal brasileira para a norte-americana. É útil.

Silêncio na sala.

Acho que errei a resposta. Faço isso com frequência.

O cidadão, então, diz que eu devo me atualizar, que preciso parar de viver no século passado. Chega um certo ponto, sabe, em que a gente só concorda. Não por educação, mas por preguiça. Respondi que eu nasci em 1971 e que, então, sou, de fato, uma pessoa do século passado.

Sou chamada de saudosista por uma pessoa que se veste como adolescente e que se refere aos “bons tempos de escola” como “a melhor época da vida”. Achei engraçado.

A gente chega à beira dos 55 bem vividos e já sabe algumas coisas a respeito de si. Consequentemente, a gente também percebe quando o outro está projetando e que o comentário traz o sujeito errado na frase. Ou quando é só machismo mesmo. Ou xenofobia. Ou qualquer outro medinho que as pessoas pequenas costumam ter.

Se tem uma coisa que eu não sou, é saudosista.

Volto para dentro da minha cabeça que, a essa altura do campeonato, está fazendo lista de compras de mercado. Não posso esquecer de comprar condicionador e suco de uva.

Minha atenção é requisitada novamente. Sou informada de tudo o que estou perdendo. Das maravilhosas ferramentas novas que facilitam muito o tedioso trabalho de escrever um post, criar uma ilustração, fazer uma prova ou diagramar um infográfico.

Percebo, com alguma surpresa, de que as pessoas não veem diferença de qualidade entre a mente humana e a máquina. Acham que a comparação lhes favorece. O que me leva à conclusão de que vivemos, de fato, um apocalipse cognitivo.

Ando num cansaço que nem conto.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho