Carolina engatinhando

Aos 55 anos, memórias, perdas e imagens antigas revelam uma vida sempre recomeçando, sempre aprendendo, ainda em construção
Ilustração: Eduardo Mussi
19/03/2026

Semana passada completei 55 anos bem vividos. Bota bem vividos nisso. Comemorei, é claro. Não tirei fotos. Esqueci. A conversa estava boa demais para ser interrompida. Ficará apenas na memória. Está bom.

Poucos dias depois, recebo mensagem de M., com o presente de fotos e filmes da minha infância, achados arqueológicos da família paterna. Um dos filmes, em 8 mm, ainda não digitalizado, está intitulado “Carolina engatinhando”. Quando será que não estive? Estou. Continuo. Sempre engatinhando, quase aprendendo a caminhar. Falhando miseravelmente várias vezes.

Minha mãe contava que, em uma de nossas muitas discussões, me irritei além da conta, peguei meus bens mais valiosos e só não fugi de casa porque não alcancei a maçaneta da porta. Era muito pequena. Sigo engatinhando. E sigo em fuga.

Fico impressionada com os achados arqueológicos. Mês que vem, completam-se 12 anos da morte do Edu.

P. descreveu essas mortes próximas como dar de cara violentamente com uma porta de vidro. A porta, que você não viu, se estilhaça toda, e a gente passa muito, muito tempo tirando os caquinhos de vidro da pele machucada e sangrenta. Achei a imagem bonita. Essa porta eu vi, mas ainda assim, sangrei.

Umas fotos lindíssimas. Edu era fotógrafo, cercado de fotógrafos e cineastas. Ainda não sei bem o que fazer dessas imagens, mas farei. Elas me suscitam algo que ainda não descobri o que é. Engatinhando, estou dizendo.

Tem uma foto do Edu (que, portanto, não foi tirada por ele) com uma máquina de escrever na frente. É como eu mais me lembro, tanto dele quanto da minha mãe. As máquinas de escrever eram quase próteses deles. Depois, minha mãe com o notebook. Edu não navegou na tecnologia com tanta facilidade quanto ela, então minha memória dele congelou na máquina de escrever. Ele digitava apenas com os dois dedos indicadores e fazia isso em uma velocidade assustadora.

Minha mãe digitava com os dez dedos. Ela, na cadeira do computador, pernas em cima da mesa, o teclado apoiado nas coxas. Um equilíbrio frágil. Equilíbrio frágil define todos nós, creio. Quase caindo tudo, ela, cadeira, teclado, café, gato, papel, caneta bic. Nunca caía.

Quando eu era menina, me colocaram em uma aula de datilografia. Máquinas de escrever de tecla dura, daquelas altas, esquisitas e lindas. Costumo achar o esquisito lindo. Tinha uma tábua em cima do teclado, para que a gente não conseguisse ver as teclas. A professora era uma mulher horrorosa que gritava o tempo inteiro. Exigia velocidade e não admitia erros. Até hoje digito com os dez dedos sem olhar para o teclado no puro trauma. Não me serviu de absolutamente nada nessa vida. Química inorgânica, geografia do cerrado e introdução à entomologia foram mais úteis.

P. digita assim também, mas vai além. Ele digita rápido, sem olhar para o teclado, e conversa sobre outro assunto com quem está ao lado. E não erra. Dá raiva. Nunca perguntei se ele foi submetido à tortura das aulas de datilografia na infância também ou se aprendeu só na força da raiva. Temos isso em comum, ele e eu, fazemos muita coisa só com o ódio como motor. Ou por raiva ou por bragging rights. No meu caso, é 50-50.

Junto com as imagens arqueológicas, vou receber também uma máquina fotográfica Flexaret, um tripé e umas coisas que não consegui identificar via whatsapp. Vou adorar. Não faço a menor ideia do que fazer com uma Flexaret em 2026, mas mal posso esperar.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

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