Que virada. O barba conseguiu, impressionante. E o bandido, claro, fugiu. Disse que não conhecia Vorcaro, conhecia. Disse que nunca tinha ligado, ligou. Disse que nunca entrou no avião, entrou. Disse que não sabia que era bandido, sabia. Disse que o dinheiro do filme não era público, era. Disse que não era sócio, era. Disse que não ia fugir, fugiu. Aí tem a carta. Três versões de ChatGPT com brasão errado e Brasil com Z. Aproveitando, eu me autoproclamo a vencedora do Oceanos. Já que o delírio é a norma do jogo, sonho alto.
Em um táxi, sem nenhum contexto anterior além do meu silêncio, o motorista aponta para uma agência dos Correios e diz “vai acabar isso aí”. Eu, burra e distraída, pergunto o quê, ahn, algo assim. “O Lula conseguiu acabar com tudo, o correio vai fechar.” Respondo “ué, mas a esquerda é contra a privatização ou o fechamento dos Correios, isso não faz sentido”. E foi assim, senhoras e senhores, que fui ouvindo sertanejo até chegar ao meu destino e nem mais uma palavra do patriota em questão. Patriota aqui, caso você esteja distraído, é uma citação de um vídeo antigo, ainda do miliciano pai, em que a humorista Carol Zoccoli diz “Calma, patriotas, calma!”, que os OVNIs já chegaram a Porto Alegre e que vão trocar o Bolsonaro (sênior) e o Lula de corpo. Naturalmente, esse vídeo ressurgiu nesta semana.
O alívio e o cansaço andam de mãos dadas na minha vida. Hoje não é diferente. Muito me impressiona que ainda existam pessoas que acreditam no discurso da extrema direita. Conheço (e gosto de) algumas pessoas que pensam a economia de uma maneira mais alinhada com os liberais, mas jamais defenderam algo como retirar a marcação da munição brasileira.
Nós provavelmente viveremos um choque inflacionário no ano que vem. Quem entende o mínimo de economia sabe que o cobertor é curto: pouco desemprego gera inflação; mais desemprego gera menos inflação. Isso se chama Curva de Phillips, teoria desenvolvida por um economista neozelandês chamado, veja você, William Phillips. Depois, uns caras chamados Milton Friedman e Edmund Phelps também vão falar sobre isso, modificando um pouco o conceito, mas o cobertor continuou curto. Então, viveremos isso independentemente de quem tivesse vencido a eleição. E é esse o motivo pelo qual a taxa de juros deve descer um pouco, mas não tanto assim, para tentar segurar essa treta. O pêndulo vai virar, o desemprego vai subir um pouco e a inflação descer um pouco. E isso provavelmente vai acontecer porque estamos com a menor taxa de desemprego desde 2012.
O Lula é capitalista. Ele não propõe outro sistema econômico, como o socialismo ou o comunismo. Não temos, atualmente, no Brasil, nenhum político com alguma expressão nacional que não seja capitalista. Por isso eu acho tão engraçado quando os bolsonaristas vão às ruas para “acabar com a ameaça comunista”.
A esquerda propõe outra forma de gerir o mesmo sistema. Tem uma fala do Deleuze que fala algo mais ou menos como a direita percebe o mundo começando com o indivíduo, depois o seu bairro, depois a cidade, depois o país, depois o mundo. E que a pessoa de esquerda percebe primeiro o mundo, depois o país, depois a cidade etc. Não se trata de uma moralidade, portanto, e sim de uma forma de organizar o seu estar no mundo. Isso, claro, supondo uma democracia, em que as pessoas podem escolher. E sim, você pode ser uma pessoa bacana ou não, independentemente do espectro político onde está. Sim, existe ditadura de esquerda e ditadura de direita. Veja, são conceitos separados. Um é o sistema econômico ou organização da produção (capitalismo, socialismo, etc). Outro é o sistema político (democracia, ditadura). Outro é a sua visão de mundo (esquerda, centro, direita, etc.).
É mais ou menos como preparar um bolo. Na mesma batedeira e com a mesma farinha, apenas variando alguns ingredientes, você pode fazer bolos diferentes.
O problema com a nossa extrema direita, além da absoluta falta de coerência, é que é, também, antidemocrática. O meu pânico nunca foi de perder uma eleição, mas de perder a democracia.
Recebi uma campanha voltada para os bolsonaristas, de boicote a uma livraria. Achei coerente.
E chega. Próxima crônica, eu volto a contar as aventuras de Nina Simone, Verônica e Frederico, prometo.