As bruxas coreanas

Quando o corpo começa a despencar rumo ao chão, é importante ter o cabelo lindo e a companhia do bom e velho Photoshop
Ilustração: Thiago Lucas
20/03/2025

Meu aniversário. Vamos a um churrasco coreano. Eu não conhecia. O churrasco coreano consiste, basicamente, em uma grelha com brasa no meio da mesa e, ao redor, um monte de comidinhas e uma vaca cortada. A ideia, me parece, é alimentar a população de forma a resistir a uma guerra, à peste, ao fim do mundo ou ao Musk, tanto faz. Fomos em um sistema de rodízio, onde poderíamos pedir para repetir quantas vacas quiséssemos. Não conseguimos terminar a primeira.

Na mesa ao lado, duas top models. Duas mulheres lindíssimas, magérrimas, elegantérrimas, chiquérrimas, educadíssimas e, me pareceram, simpaticíssimas. Elas pediram repetição de carne não uma, mas duas vezes. A minha única explicação é de que eram bruxas. E, sem que tenham me feito qualquer coisa, eu as odeio.

Trabalho com um sujeito que come porcaria o dia inteiro, a noite inteira. Não tem problemas de glicose e nem de colesterol. Está errado, sabe. Não espero que o mundo seja justo. Eu sei que não é, nunca foi. Mas caramba. Deve ter chulé, bafo, sei lá, qualquer coisa.

Me olho no espelho.

Meu cabelo está magnífico.

As olheiras vão até o joelho, a pele está ressecada, os pés de galinha já estão cacarejando, o papo está flácido, a miopia piorou bastante e o restante do meu corpo vai em direção ao chão. Mas meu cabelo está lindo. Alguns brancos, mas, de uma forma geral, voltando à forma que tinha na minha infância. Gosto dos brancos. Os aguardei por muito tempo. Minha mãe, se não me falha a memória, foi ostentar a sua prata depois dos 60. Minha avó morreu abraçada a um pote de tinta de cabelo, então eu não tenho a mais vaga ideia. Eu começo agora, aos 54 recentemente concluídos.

Ando cansada. As costas doem. O joelho sempre foi, desde a adolescência, um narrador não-confiável. A sinusite me ama e não aceita distâncias. Agora, ainda por cima, tenho calos no pé. Envelhecer é doloroso.

Negocio escada como se eu fosse Volodymyr Zelensky tentando manter alguma coisa. Dignidade, seu cargo, terra, reator nuclear, minérios, tanto faz.

A cada dia que passa, a siesta me faz mais sentido. Essa coisa de passar tanto tempo acordado e alerta faz mal pra pessoa, sabe. Nina acorda, toma café da manhã, passeia, faz xixi, volta, dorme de novo. Como sempre, a sabedoria vem dos cachorros.

Preparando a nova exposição, aqui em São Paulo, preciso de fotos de divulgação. As fotos são terríveis. Podem ser ampliadas até que as rugas se tornem rios, fazendo com que as manchas da velhice virem arquipélagos.

Para isso Deus inventou o Photoshop, algum amigo há de me falar. Sempre fico um pouco dividida entre gostar da minha imagem publicada ou sofrer com a decepção da pessoa que, por azar, me encontrar ao vivo.

Opto por um meio do caminho. Digitalmente, diminuo um pouco a olheira. Mantenho as rugas. Sempre é possível colocar a culpa da diferença na noite anterior. Tudo bem que já são 19.710 noites maldormidas, mas o incauto não precisa ser informado desse fato.

Torno a pensar nas bruxas do churrasco coreano. Lembrei que, ainda por cima, estavam bem-vestidas. Que raiva.

O que importa é que meu cabelo está lindo. O resto que se dane.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho